(Christine, GBR/EUA, 2016)
Drama
Direção: Antonio Campos
Elenco: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts, Maria Dizzia, J. Smith-Cameron, Timothy Simons, Kim Shaw, John Cullum
Roteiro: Craig Shilowich
Duração: 115 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

A jornalista Christine Chubbuck tornou-se mundialmente conhecida por sua última atitude na vida. Diante das câmeras, no horário em que apresentava seu programa de entrevistas matinal, ela assumiu a bancada do telejornal para algumas notícias. Uma delas era sobre um tiroteio em uma loja qualquer, mas o vídeo, que ela tinha finalizado pouco antes, não foi ao ar. Chubbuck leu algumas linhas sobre o sensacionalismo no jornalismo e, anunciando, retirou de sua bolsa uma revólver e deu um tiro na cabeça. Ao vivo.

A cena, que repercutiu por algum tempo nos telejornais do mundo, nunca mais foi vista, mas o mistério por trás das motivações da jornalista permanece até hoje. Tanto que a história esteve presente em duas versões no Festival de Sundance. Enquanto o documentário Kate Plays Christine, também exibido no É Tudo Verdade deste ano, acompanha uma atriz que investiga os últimos dias de vida de Chubbuck para interpretá-la, a ficção Christine, exibida no Festival do Rio, traz Rebecca Hall (Vicky Cristina Barcelona)  como a jornalista.

E é dela o maior destaque no longa-metragem dirigido por Antônio Campos (Simon Killer) e roteirizado pelo produtor Craig Shilowich. O modo como a atriz incorpora Chubbuck e se deixa abater pela inadequação e falta de perspectiva de sua personagem é curioso, tantos nos momentos de introspecção e nos estouros. A transformação durante o filme, quando se chega em um lugar muito mais escuro e interior do que aquele do começo, impressiona.

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Mas Christine não é só ela, e o filme acaba se atrapalhando em vários problemas que encontra no meio do caminho. Apesar de acertar na alteração de alguns eventos para buscar a fluidez da história, falta uma determinação sobre qual caminho seguir e a indefinição entre a depressão e seus efeitos na vida da personagem central, e a crítica ao jornalismo que busca espectadores sem se importar com o conteúdo ficam mais perdidas do que deveriam, atrapalhando consideravelmente o ritmo da história.

Mas há uma certa recuperação no final do filme, que é visto de uma maneira pelos que conhecem a história e de outra completamente diferente pelos que não têm ideia do que está sendo contado. A tensão nesta parte final, faz com que se preste atenção a tudo o que está sendo contado e acaba fazendo o filme funcionar.

Há ainda que se falar no bom trabalho de recriação de época, no caso, os anos 70, pelo designer de produção Scott Kuzio (Cala a Boca, Philip) e pela trinca Molly Baile (The Trust), na direção de arte; Emma Potter (Você É o Próximo), nos figurinos, e Jess Royal (O Maravilhoso Agora) na cenografia. O resto do elenco, embora não tenha tanto espaço quanto Rebecca Hall, também está bem, e faz o que pode com o roteiro que tem nas mãos. Entre os destaques estão Tracy Letts (A Grande Aposta), J. Smith-Cameron (Um Domingo de Chuva), Michael C. Hall (Julho Sangrento) e Maria Dizzia (Enquanto Somos Jovens).

Indeciso, Christine talvez fosse um filme muito melhor se estivesse seguro sobre qual caminho seguir, mas ao tentar esclarecer a história de uma pessoa que, entre tantos indícios e teorias, não conseguiu seguir adiante e resolveu desistir publicamente, tem o seu valor. O jogar de luzes no despertar daquela espécie de curiosidade mórbida no espectador – o mesmo que domina o telejornalismo e pode ter levado à última crise de Chubbuck – e na duração que aquelas imagens repercutiram na mídia e na vida das pessoas – metaforicamente expresso pela última cena – são cruéis, mas bem interessantes.

Um Grande Momento:
A briga com Michael.

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