(Carol, GBR/EUA, 2015)

Drama
Direção: Todd Haynes
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Kyle Chandler, Jake Lacy, Sarah Paulson, John Magaro, Cory Michael Smith, Kevin Crowley, Nik Pajic
Roteiro: Patricia Highsmith (romance), Phyllis Nagy
Duração: 118 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Todo o alarde feito em torno de Carol desde que foi aplaudido de pé, tanto na sessão para imprensa, quanto em sua première em Cannes, tem um motivo. Além de uma bela história, muito bem adaptada, da direção segura de Todd Haynes (Não Estou Lá) e de duas atuações inspiradíssimas de Cate Blanchett (Blue Jasmine) e Rooney Mara (Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres), é impossível manter-se alheio à estética deslumbrante do filme.

São tantos detalhes cuidadosamente calculados para transmitir os sentimentos e uma organização visual tão bem estabelecida, que a história consegue transcender a tela e tocar até mesmo os mais mal-humorados, que tentam encontrar defeitos naquilo que veem, mas não conseguem se desligar nem por um momento daquilo que está sendo contado.

O longa-metragem é baseado no romance homônimo de Patricia Highsmith. Conhecida por seus livros de suspense, alguns já adaptados à telona, como Pacto Sinistro, O Talentoso Ripley e As Duas Faces de Janeiro, a escritora ainda mantém alguns de seus elementos principais, mas tem em Carol uma história menos enigmática e mais voltada para a definição social de suas personagens.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1952, com o nome de “The Prince of Salt”, sob o pseudônimo de Claire Morgan. Em 1990, a autora fez algumas pequenas modificações e o relançou com o nome de “Carol”, desta vez assumindo a autoria da obra. Segundo a própria Highsmith, a inspiração veio enquanto ela trabalhava como temporária em uma loja de departamentos e ficou encantada com a presença de uma mulher loira que lá apareceu para comprar uma boneca. Na mesma noite, duas horas depois de começar a escrever, a autora tinha sua história completa.

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No filme acompanhamos a história de Therese Belivet, também temporária na seção de brinquedos de uma enorme loja de departamentos, e Carol Aird, a mulher elegante e atraente que vai à loja comprar um presente para sua filha pequena. As duas têm uma conversa breve sobre que brinquedo seria mais interessante à pequena e, desde aquele momento, conectam-se uma à outra.

A responsável pela adaptação foi Phyllis Nagy, conhecida pela adaptação do Very Much a Lady, de Shana Alexander, para a televisão. A delicadeza com que a roteirista transforma o romance em um roteiro fluido e envolvente é uma das grandes qualidades do filme. Toda a contenção daqueles sentimentos, os momentos de descoberta e a pressão social, dão um tom melancólico à trama que, de certa maneira, contrasta com todo o delicado visual em que ela ocorre.

É como se o que se vê fosse bonito demais para contar uma história que é cheia de tristeza, mas essa mesma beleza é imprescindível para que a história ganhasse vida. E é justamente este moto-contínuo que transforma a experiência em algo tão arrebatador para os que estão do outro lado da tela.

Para compor o visual, Haynes e seu diretor de fotografia, Edward Lachman (As Virgens Suicidas), que já estiveram juntos em Longe do Paraíso, foram buscar inspiração nas composições fotográficas de grandes nomes do Século XX, como Morris Engel, Saul Leiter, Ruth Orkin e Vivian Maier. A transformação das já deslumbrantes tomadas estáticas e momentâneas da fotografia em sequências fílmicas é de encher os olhos.

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Assim como o também impressionante cuidado com toda a concepção da arte, no incrível desenho de produção de Judy Becker, com direção de arte de Jesse Rosenthal, cenografia de Heather Loeffler (os três trabalharam juntos em Trapaça) e os deslumbrantes figurinos de Sandy Powell (A Invenção de Hugo Cabret). Tudo ganha um contorno especial com a forma como Haynes rege sua orquestra, dando a cada área uma importância fundamental no desenvolvimento da trama, e deixando que, por muitas vezes, detalhes conduzam o espectador por sua história.

Para completar a experiência, só mesmo duas atrizes que estivessem conscientes da grandeza de suas personagens, como Blanchett e Mara. A entrega de ambas também impressiona, bem como a capacidade que elas têm de introjetar toda a negatividade com que a sociedade daquela época as encarava e, ao mesmo tempo, expor toda a devoção, admiração e desejo que constituía a relação das duas. Tudo de maneira muito sutil e delicada, como pedia o tom do longa-metragem.

Carol é um daqueles filmes que, com uma história simples, envolve e conquista quem o assiste, trazendo, ao mesmo tempo, uma certa amargura envolvida em beleza e uma esperança quase frustrada. Os tempos mudaram, as coisas melhoraram, mas ainda falta muito respeito para chegar onde se deve.

Um Grande Momento:
Sorrindo com o olhar.

Oscar-logo2Oscar 2016 (indicações)
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Atriz (Cate Blanchett), Melhor Atriz Coadjuvante (Rooney Mara)
Melhor Fotografia (Edward Lachman), Melhor Figurino (Sandy Powell)
Melhor Trilha Sonora (Carter Burwell)

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