Fazer um curta-metragem é contar muita coisa em pouco tempo, sintetizando uma história e dando sentido a cada som e quadro que diga algo à trama.

No Brasil, o mercado de curtas não é tão conhecido como deveria. Dentre os muitos nomes que merecem destaque está o de um jovem pernambucano, Camilo Cavalcante, que consegue transitar muito bem em um mundo musico-visual e que sabe como contar uma história em quadros tão belos que fica difícil dizer que sua obra não é poesia pura.

Há algum tempo ganhei a filmografia deste diretor delicado de temas duros. São dois DVDs com todos os curtas dirigidos por ele.

A força e a contundência do trabalho chamaram minha atenção logo de cara e, sem dúvida, é um trabalho que merece ser divulgado e conferido.

Hambre Hombre

Baseado na poesia “Memórias do Subdesenvolvimento”, de Tomas Gutierrez Alea, o filme conta histórias de um homem que vaga pelas ruas de Havana.

Filmado em Betacam, como outros trabalhos do diretor, o filme é cansativo e às vezes lembra os discursos do ex-presidente daquele país. Perdido no tempo, o curta tem tantas imagens interessantes, marcantes e cheias de significados que já demonstra o jeito de Camilo para a coisa.

Os Dois Velhinhos

Em um único ambiente dois velhinhos passam a tarde.

A estética utilizada, auxiliada pela pela pausa personificadora, envolve o espectador. A obra porém não agrada a todos, mas é, sem dúvida, interessante.

Alma Cega

A jornada de um cego por sua própria história e seu interior.

Misturando cordel e repente, o filme tem boas imagens, mas tem dificuldade em encontra o ritmo adequado.

Apesar das atuações fracas, vale a pena prestar atenção na iluminação e nos enquadramentos.

Outra coisa que chama muita atenção é a capacidade do diretor de provocar reações no espectador.

Leviatã

O primeiro filme a chamar minha atenção para Camilo Cavalcante conta a história de um retirante nordestino em São Paulo.

Sua perda de identidade e sua rotina impessoal acabaram transformando-o no quê?

Com colagens de textos conhecidos e relacionados com essa saudade dos que abandonaram suas terras para tentar uma vida melhor, o roteiro é precioso em cada detalhe.

Chico Domingos estão muito bem no papel do retirante e consegue passar perfeitamente aquele sentimento de vazio e perda.

E neste filme que conseguimos ter uma noção exata de como o som e a trilha sonora vão fazer parte constante e fundamental da obra de Cavalcante.

Apesar de todas as qualidades, a aposta em inserções pouco usuais e estranhas não funciona muito bem, ainda que valha pela coragem.

Ocaso

Retomando o artifício de Os Dois Velhinhos, mas em uma locação maior e com uma história muito mais complexa, Ocaso conta, em poucos minutos e sem falas, toda uma história de amor e de posse no sertão.

Dinâmico e ousado, o curta ocupa um lugar especial nas minhas preferências. Além disso, tem um tempo perfeito.

Amorte

Dois velhos celebram o amor e o tempo que passaram juntos.

Com imagens interessantes e escolhas ousadas, o filme mexe com quem o assiste, mas tem alguma coisa que não funciona muito bem.

A trilha sonora, sempre ponto alto do diretor, pela primeira vez me incomoda. Mas ainda é uma boa história.

Matarás

Na véspera de natal uma criança e seus sequestradores estão ainda no cativeiro e alguma coisa precisa ser feita.

Apesar do bom roteiro e de todo o significado do filme, as atuações deixam a desejar e acabam fazendo o ritmo do filme desandar.

A marcação de cena é quase teatral e um pouco cansativa.

O Velho, o Mar e o Lago

Um velho solitário passa seus dias em um antigo farol.

Além da fotografia fantástica, assinada por Mario Pinheiro Jr., e a impecável direção de arte de Darcel Andrade e Cleonice Veloso, o filme ainda conta com uma excelente atuação de Cosme Soares.

Apesar de um quadro perdido e algum corte ab-rupto é um filme imperdível. Um belíssimo retrato da velhice temperado com críticas social e política.

Ave Maria dos Oprimidos

Ainda hoje algumas rádios reservam o horário das 18h para executar a clássica música Ave Maria, composta por Schubert.

Em uma cidade grande um mosaico de situações e experiências compõe esse momento.

Uma característica inegável no trablho de Camilo Cavalcante são os temas duros e pesados. Este curta parece juntar todas as mazelas sociais já tratados por eles a mais algumas e demonstra toda doença do mundo.

Imagens duras e uma música tão contrastante, quando juntas são ainda mais perturbadoras.

A História da Eternidade

Mais uma poesia social e um competente retrato do ser-humano.

Como se tivesse sido filmado em um único plano-sequência, o filme vai costurando histórias e demonstrando as várias facetas da sociedade e de seu animal principal, o homem.

As cenas são muito boas e os enquadramentos, maravilhosos.

Rapsódia para um Homem Comum

Funcionário público se cansa da rotina e se entrega a uma obsessão.

O meu primeiríssimo lugar, sem dúvida nenhuma. Apesar de seus 27 minutos de duração, o filme conta tanto e envolve tanto com a personalidade daquele homem desesperado que, simplesmente, não notamos que estamos ali há tanto tempo.

Aqui as imagens e o som atingem seu ápice e a trilha sonora é perfeita.

Apesar de toda a excelência, o filme sofre uma quebra desnecessária (praia), mas que não atrapalha o andamento.

Coerente, visualmente lindo, tocante e fantástico!

O Presidente dos Estados Unidos

Depois de um filme como Rapsódia para um Homem Comum, a expectativa cresce tanto que fica muito mais fácil notar os defeitos do filme seguinte.

Carlinhos, ao saber da declaração de guerra dos EUA ao Iraque entra em uma “errada”.

Apesar do tema interessante e do roteiro premiado no Festival de Brasília, o filme tem problemas graves de som e não convence em suas atuações.

E são estes os títulos que compõe a filmografia deste cineasta do Recife que sabe como poucos misturar elementos para passar um recado.

Uma jóia da produção brasileira que merece ser conhecida. Alguns filmes estão disponíveis no Porta Curtas.

Pessoas deprimidas devem tomar cuidade com os curtas e esperar por um momento melhor, pois são filmes bem pesados.