(Cabeça a Prêmio, BRA, 2009)

Drama
Direção: Marco Ricca
Elenco: Alice Braga, Ana Braga, Cássio Gabus Mendes, Daniel Hendler, Eduardo Moscovis, Otávio Muller, Fúlvio Stefanini, Via Negromonte
Roteiro: Marçal Aquino (livro), Filipe Braga, Marco Ricca
Duração: 104 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆
Máfia. Política. Violência. Drogas. Prostituição. Sexo. Amizades. Relações familiares. Segredos. Ciúmes. Inveja. Traições. Assassinatos. Estes são os elementos que compõe a fórmula dramática de Cabeça a Prêmio, filme de estréia do ator Marco Ricca na direção e que merece contidos elogios pelo seu grande potencial narrativo.

O filme, mais do que material para uma boa direção, é uma obra claramente concebida para a entrega absoluta de seu elenco ao drama dos personagens. E, considerando o elenco estelar que surge na tela, é com tristeza que chegamos ao fim da narrativa sentindo uma forte vontade de esquecer tudo o que vimos. Não porque estamos emocionalmente arrasados com o destino de um ou outro, mas porque estamos constrangidos pelo desempenho de atores tão renomados.

Adaptação do livro homônimo de Marçal Aquino, roteirizado por Ricca e Felipe Braga, Cabeça a Prêmio conta a história dos negócios ilegais mantidos pelos fazendeiros irmãos Miro e Abílio Menezes (Fúlvio Stefanini e Otávio Müller, respectivamente). Investigado pela Polícia Federal, Miro enfrenta o dilema de largar tudo ou transferir o comando para seu irmão mais novo.

Para os dois trabalham os matadores Albano (Cassio Gabus Mendes) e Brito (Eduardo Moscovis), que aguardam o próximo trabalho enquanto um se diverte com prostitutas baratas e o outro se apaixona por uma dona de bar (Via Negromonte). Além dos dois, há Dênis (Daniel Hendler), um jovem piloto paraguaio que trabalha perto da fronteira Brasil-Paraguai transportando cargas ilegais e se apaixona pela filha do chefe (Alice Braga).

Repleta de camadas, esta sinopse simplifica radicalmente a complicada trama do filme (que, a princípio, até parece uma narrativa fragmentada, como o livro, mas não é) e remete a complexidade de grandes dramas. O roteiro, porém, acaba caindo em armadilhas que diminuem a trama à categoria de uma simples novela – com direito a mulheres escandalosas que cumprem a função de núcleo cômico.

Da mesma forma, a aguardada entrega emocional dos atores dá lugar a muletas e caracterizações dispensáveis, como quando Miro respira forçadamente em um momento de estresse, ou quando o matador Brito se entrega à fossa. Além, é claro, do estúpido Albano, que é, definitivamente, um dos personagens mais desagradáveis e irritantes da carreira de Cássio Gabus Mendes.

Por outro lado, alguns atores mergulham de cabeça na criação e, conseqüentemente, surgem como os personagens mais interessantes da produção. Hendler confere carisma e inocência ao seu perdido e despreparado Dênis, Negromonte dá o equilíbrio correto entre indiferença e esperança à sua desacreditada ex-prostituta e Müller transforma seu desprezível Abílio em um bandido fraco e parasita. E finalmente chegamos a Alice Braga, atriz que vem se mostrando cada vez mais versátil e interessante e que aqui nos entrega uma jovem adequadamente cega aos crimes da família, mas que não hesita em abandoná-la em nome de sua paixão – embora não espere, é claro, pelas complicações da falta de dinheiro e do papel de testemunha desempenhado pelo namorado.

Político e burocrático, Cabeça a Prêmio é tecnicamente razoável, apresentando uma trilha sonora pontualmente marcante e uma direção de arte corretamente suja, que explora a pobreza da região e o caráter dos personagens – com destaque para a casa miserável que surge no ato final. Na contra-mão, a fotografia de José Roberto Eliezer perde oportunidades e se limita a acentuar o clima tropical da região.

Ao evitar cenas de violência que mereciam ser mais gráficas e ignorar as conseqüências do tráfico de drogas, (que, afinal, é o negócio que a família parece manter) o longa perde em dramaticidade e acaba não desempenhando qualquer relevância como crítica social, relegando-se exclusivamente ao papel de “filme de atores”. O que nem sempre funciona, talvez pela inexperiência de Ricca em dirigir seus antigos colegas de cena e ídolos.

O que é uma pena, pois Cabeça a Prêmio poderia ter sido, facilmente, um dos melhores filmes brasileiros do ano.

Um Grande momento

Os segundos finais.

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