(Bright Star, GBR/AUS/FRA, 2009)

Drama
Direção: Jane Campion
Elenco: Abbie Cornish, Ben Whishaw, Paul Schneider, Kerry Fox, Gerard Monaco, Antonia Campbell-Hughes, Samuel Roukin, Samuel Barnett, Roger Ashton-Griffiths
Roteiro: Andrew Motion (biografia), Jane Campion
Duração: 119 min.

Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Não conseguiria imaginar pessoa mais adequada que Jane Campion para comandar uma cinebiografia sobre John Keats, o último e mais importante poeta romântico inglês. Dona de sensibilidade rara no cinema de hoje, a neozelandesa Campion constroi em suas encenações aquela aura extremamente particular, quase mística e tão delicada quanto, perfeita para retratar o gênio precoce que faleceu de tuberculose aos 25 anos e sua relação com a estilista de vanguarda Fanny Brawne.

O magnetismo imagético do cinema de Campion, porém, quase desmorona com a fraca dramaturgia imposta a Brilho de uma Paixão. Sem querer exagerar no convencional, o filme abraça os anos finais da vida de Keats. O recorte apresentando a relação do poeta incompreendido com a mocinha atrevida, infelizmente, é pincelado em tintas brandas e talvez soporíferas para os menos pacientes. A ênfase dada a Brawne (em atuação impressiva de Abbie Cornish), que parece saída dos escritos de Jane Austen, relega Keats a um incomodande personagem secundário.

É fato que Jane Campion se atrela aos personagens femininos de suas histórias, foi assim em toda a sua carreira. Mas aqui essa escolha se torna equivocada porque não há outro motivo de existência do projeto senão Keats. O personagem, o objeto, é ele, e não a pessoa quem amou, tornando essa mudança de foco injustificável. A narrativa se concentra tanto em Brawne que, quando tenta se focar em Keats, é tão mal sucedida que acaba se amparando em artifícios vulgares, como o uso de trilha sonora mais close no ator Ben Whishaw que, apesar de talentoso, é sabotado a todo o momento.

Porém, é entendível que Campion, também roteirista (ela baseou-se em biografia sobre Keats escrita por Andrew Motion), tenha se esquivado em mastigar os pormenores dessa relação para o espectador. Mas as arestas foram tão aparadas que as motivações dos personagens acabaram não sendo expostas. Não se sabe, por exemplo, o porquê de Brawne se interessar por Keats, ou como o mesmo sentimento foi despertado no poeta. Ou porque o mesmo, apesar da fraca recepção de seus trabalhos pela crítica literária da época, era amparado financeiramente por tantos amigos, que chegaram a cobrir os custos de seu exílio na Itália, onde veio a falecer.

Mascarando essas falhas, o resplendor visual do filme é daqueles arrebatadores, apesar de alguns excessos – como uma sequência inteira de Brawne e irmãos por um campo de lavandas, que em nenhum momento é justificável além do impacto da cor violeta impresso na tela.

Apesar de imperfeito, Brilho de uma Paixão é tão visualmente inebriante que é impossível desgrudar os olhos. O trabalho de Campion é tão minucioso nesse sentido que o uso dos planos-detalhes são tão espertos que se tornam fundamentais para a criação de intimidade entre os protagonistas. Intimidade essa que surpreende por quebrar o estigmatizado modelo social vitoriano que os filmes ingleses de época tanto reiteram.

Pena que, para encontrarmos Keats no filme, tenhamos que aguardar os créditos.

Um Grande Momento

O toque de mãos entre Keats e Brawne.

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