Crítica | Streaming e VoD

A Batalha do Biscoito Pop-Tart

O preço da arrogância

(Unfrosted, EUA, 2024)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jerry Seinfeld
  • Roteiro: Jerry Seinfeld, Spike Feresten, Andy Robin, Barry Marder
  • Elenco: Jerry Seinfeld, Melissa McCarthy, Amy Schumer, Jim Gaffigan, Hugh Grant, Max Greenfield, Christian Slater, Bailey Sheetz, Eleanor Sweeney, Kyle Dunnigan, Adrian Martinez, Bobby Moinahan, James Marsden, Peter Dinklage, David Slattery, Jon Hamm
  • Duração: 85 minutos

A partir da metade, o espectador começa a entender onde Jerry Seinfeld estava querendo chegar com A Batalha do Biscoito Pop-Tart, um negócio tão híbrido que não somente o público conseguiu capturar a ideia, como a Netflix acaba de lançar o filme e… simplesmente nada aconteceu com ele. Alguns textos o chamam de genial, outro de um dos piores títulos já feitos, e na verdade não temos nem uma coisa nem outra, mas verdadeiramente uma tentativa daquelas bem doloridas. Não é difícil chegar a uma comédia com essa pegada, o título cujos criadores eram tão brilhantes que esqueceram de perceber o óbvio: a melhor comédia é aquela onde todos riem juntos. Se você e seus amigos estão caindo na risada sozinhos, é sinal de que alguém não deu certo. 

Eu consigo lembrar de bate-pronto dois exemplos onde a inteligência coletiva e a falta de noção sobre para quem um produto estava sendo vendido assolaram projetos que tinham mais chance de dar certo que errado. Em Porta do Fundos: Contrato Vitalício, o grupo de humor mais bem sucedido a surgir na última década acreditou que qualquer coisa que fizessem seria comprado pelo público, e entregou um filme cheio de metalinguagem cuja comunicação com o público foi zero. Em De Que Planeta Você Veio?, percebemos que mesmo um autor genial como Mike Nichols pode se perder na megalomania do próprio intelecto, e criar uma fórmula que afaste quem procurava agradar. Em comum, os dois filmes conseguiram a pior proeza para comédias: não ser engraçado, algo que A Batalha do Biscoito Pop-Tart esbarra muitas vezes. 

O que adianta elaborar um conceito que os irmãos Zucker e Jim Abrahams teriam orgulho, se não existiu inspiração para realizar um novo Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu!? Era exatamente essa a intenção, homenagear as sátiras que o grupo ZAZ (Zucker, Abrahams e Zucker) entregou nos anos 80. Em A Batalha do Biscoito Pop-Tart o conceito conseguiu um excelente ‘timing’, vindo na sequência do sucesso de Oppenheimer para dar conta das grandes descobertas estadunidenses dos anos 50 e 60 ligadas à ciência, que muito mais provocaram destruição e morte que evolução. A reconstituição é bem adequada, tanto das ideias que a comédia cinematográfica entregou há quarenta anos, como a criatividade estética do período onde o filme se passa, mas o resultado é visivelmente truncado. 

Apoie o Cenas

Estamos diante de um daqueles casos onde uma figura muito poderosa é vista como impossível de ser ouvida, e aí os profissionais que o cercam não conseguem encontrar brecha para anunciar que o projeto está à deriva. Na segunda metade de A Batalha do Biscoito Pop-Tart as ideias de Seinfeld começam a fazer sentido, e o filme consegue alcançar alguma comicidade, provocando o espectador com suas gags. Mas ao pensar justamente no projeto já citado do ZAZ, tínhamos apego aos personagens e ao que estava sendo contado ali, para além do humor. Aqui, uma das causas da falta de envolvimento é pelo qual não somos envolvidos pelos tipos do filme, que apenas são interpretados por um elenco fora de série, mas cujas linhas de entendimento não são desenvolvidas. São tipos desprovidos de humanidade.

Então Seinfeld, Melissa McCarthy, Jim Gaffigan, Hugh Grant, Peter Dinklage, Christian Slater e tantos outros estão mais à serviço da imagem vazia, sem conexão emocional que lhes dê vida. Amy Schumer é quem se sai melhor, por se tratar de uma vilã que a atriz trata de estereotipar ao máximo, e as participações de Jon Hamm e David Slattery que tem uma sacada esperada, porém muito funcional. Fora eles, A Batalha do Biscoito Pop-Tart sofre de excesso de auto-importância e auto-empolgação, sem mostrar os motivos pelo qual tais dados estão impressos na tela. É um quadro abstrato de compreensão, onde o excesso de elementos deixam mais claro a existência de uma preocupação exclusiva na aprovação de si, esquecendo o alheio a quem o filme deveria ter servido. 

Um grande momento

A explosão

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Assinar
Notificar
guest

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver comentário
Botão Voltar ao topo