(The Adventures of Tintin, EUA/NZL, 2011)

Aventura
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost, Simon Pegg, Daniel Mays
Roteiro: Hergé (história em quadrinhos), Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish
Duração: 107 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A tecnologia 3D está cada vez mais presente no cinema. Filmes de todos os gêneros e qualidades usam o artifício tecnológico para atrair novamente as pessoas às salas de cinema e, ao mesmo tempo, tentar conter a onda de pirataria. Mas por ser algo novo, seu uso ainda é muito “empolgado” e seus exageros, com cenários escalafobéticos e muitas imagens que saem das telas e invadem o campo sensorial dos espectadores, mais atrapalham do que contribuem.

Em alguns casos até existem boas histórias, mas o deslumbramento com a novidade e a vontade de impressionar substituem o pensar no filme como uma junção de vários quesitos fundamentais, que vão além de sensações visuais. Sejam capturados em 3D ou convertidos posteriormente, o sentido de imersão na história é preterido e vários filmes com momentos dignos de brinquedos de parques de diversão são lançados semanalmente nos cinemas.

Até que um cineasta de verdade resolve experimentar a brincadeira. Documentários como Pina, de Win Wenders, e A Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog, por exemplo, vêm para mostrar que é possível contar com a nova tecnologia para tornar a experiência do espectador ainda mais mágica. E o mesmo pode ser dito de Steven Spielberg e o seu As Aventuras de Tintim.

Meticuloso ao extremo, o diretor estadunidense às vezes se perde em seus muitos cacoetes melodramáticos (menos comuns em seu cinema de aventura), mas é de uma maestria visual impar e lida com o 3D de uma maneira sutil, sempre com o intuito de envolver o espectador ainda mais com a histórias, sem exageros, sustos e absurdos estéticos.

Como uma peneira, o 3D chega para separar quem sabe de quem nunca conseguiu aprender a fazer cinema de verdade. Para o espectador, descobrir, depois de tantos anos e filmes, que existe uma nova forma mais prazerosa de “viver” as histórias da tela prateada encanta e anima.

E o mais curioso é descobrir isso com a adaptação de um personagem que tem mais de 80 anos e que, com seus traços bidimensionais já fazia parte da vida de muitos, seja por suas histórias em quadrinhos quanto pela fidelíssima série animadas dos anos 90.

Conta-se que o próprio criador deste universo, o belga Hergé, ao assistir a Os Caçadores da Arca Perdida e muito antes de existir animação com captura de movimentos e tantas outras técnicas digitais, disse que o único que conseguiria adaptar as histórias de Tintim para o cinema seria Spielberg, que na mesma época foi apresentado aos quadrinhos por sua secretária e tornou-se fã das histórias.

Muito tempo passou até que o filme começasse a ser produzido e, neste tempo, Spielberg foi mudando um pouco o seu jeito de fazer cinema. Se afastando das histórias de aventura, dedicou-se a fazer a audiência chorar em finais marcadamente piegas e, com uma postura politicamente correta exacerbada, chegou a transformar as armas de E.T. – O Extraterrestre em lanternas, mutilando sua própria obra. Nada parecido com alguém que poderia adaptar as histórias de Hergé, conhecidamente polêmicas por seu conteúdo politicamente incorreto. Mas talvez aí a presença no projeto de Peter Jackson, que sempre mostrou uma fidelidade literária impressionante, como na adaptação da obra de J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, tenha sido fundamental e ido muito além da tecnologia de animação de sua empresa Weta Digital.

Ainda que com o roteiro baseado em três histórias consideradas neutras (O Caranguejo das Pinças de Ouro, O Segredo do Unicórnio e O Tesouro de Rakham, o Terrível), curiosamente publicadas em um dos poucos jornais de circulação autorizada pelos nazistas, o belga Le Soir, a fidelidade com os quadrinhos impressiona. Chegando ao ponto dos leitores mais ávidos reconhecerem falas idênticas durante a projeção e anteciparem acontecimentos.

Tintim é um jovem repórter investigativo que roda o mundo a procurar boas histórias e desvendar  mistérios ao lado do seu cãozinho Milu, um esperto fox terrier. Em uma feira de praça, após ter seu desenho feito por Hergé em pessoas, ele encontra uma impressionante réplica de um galeão antigo e a compra. O objeto, cobiçado por outras pessoas, é roubado de sua casa e Tintim resolve descobrir o porquê. Para isso conta com a ajuda do adorador de whisky Capitão Haddock e dos atrapalhados Dupondt, ou Dupont e Dupond.

Com um ritmo acelerado, sempre muito bem cadenciado pela trilha sonora de John Williams, parceiro constante de Spielberg, acompanhamos o herói ser capturado por vilões, fugir espetacularmente de um navio, tomar o poder de um hidroavião, se perder no deserto e participar de uma eletrizante perseguição nas ruas de Bagghar, sem falar na tomada do navio Licorne por Rakham. Aventura não falta e tudo é tão mágico que é difícil não se render ao filme, seja o espectador um antigo amante de Tintim ou não.

Durante todos os 107 minutos do filme, Spielberg faz mágica. Surpreende com transições de cena impressionantes, encontra um equilíbrio saudável entre a ação e o humor, emprega bem elipses de tempo e a cria sequências de tirar o fôlego de qualquer um. O roteiro de Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish, que junta duas histórias completamente independentes, ajuda bastante também.

O visual tridimensional, contrariando o medo dos mais puristas fãs de Tintim, combina com a história e, de certo modo, moderniza-a, assim como a captura digital de movimentos, que por ser tão apurada torna a experiência completamente natural e próxima. O 3D é discreto e, diferente de filmes de ação que usam a tecnologia, não distrai o público em nenhum momento.

Spielberg só peca nos últimos momentos, quando se prolonga no final e desliza para esse lado menos artístico e mais escancaradamente comercial do cinema, tão em voga no momento, que sempre faz questão de deixar ganchos para continuações. Desnecessário, uma vez que todo o trabalho feito antes já levaria as pessoas de volta ao cinema. Poderia ter guardado para a sequência inicial de uma possível adaptação completa da história O Tesouro de Rakhan, O Terrível.

Mas é, sem dúvida nenhuma, uma experiência que precisa ser vivida por todos, independente da idade e do grau de conhecimento da obra do desenhista Hergé. Hipnotizante, cativante e daqueles que não só ficam na cabeça, como deixam a nossa vida mais feliz.

Além de ser uma prova concreta de que a tecnologia pode sim, sempre, acrescentar algo ao cinema. O que falta são cineastas de qualidade para fazê-lo.

Um Grande Momento

A perseguição em Bagghar.

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