(Assalto ao Banco Central, BRA, 2011)

Ação
Direção: Marcos Paulo
Elenco: Milhem Cortaz, Eriberto Leão, Lima Duarte, Hermila Guedes, Lima Duarte, Giulia Gam, Cadu Fávero, Tonico Pereira, Juliano Cazarré, Gero Camilo, Heitor Martinez Mello, Fábio Lago, Créo Kellab, Vinícius de Oliveira, Antonio Abujamra, Cássio Gabus Mendes, Paulo César Grande, Duda Ribeiro, Ilva Niño, Milton Gonçalves
Roteiro: Rene Belmonte, Lucio Manfredi
Duração: 94 min.
Nota: 3 ★★★☆☆☆☆☆☆☆

No início de agosto de 2005, o assunto principal de qualquer notíciário e mesas de bar era o assalto ao Banco Central do Brasil em Fortaleza, o maior assalto da história do Brasil. Mais de R$ 160 milhões sumiram de dentro do cofre do banco de maneira engenhosa: um túnel com 84 metros de comprimento, sistema de ar-condicionado e revestimento de lona foi construido a partir de uma casa próxima à instituição. Até junho deste ano suspeitos de participação no crime estavam sendo presos e muito pouco foi recuperado do dinheiro.

História pronta e com grande potencial, natural que fosse parar no cinema. Não natural que tivesse uma abortagem tão atrapalhada como aconteceu. O equívoco já começa pelo roteiro. Não confiante no valor da história e talvez pela conhecida falta do traquejo na filmagem de cenas de ação, ele foi trabalhado em cima de personagens, mas sem o aprofundamento necessário para filmes com esta abordagem.

Depois, o erro foi entregar o filme a um diretor que, por mais que tenha demonstrado habilidade com novelas e programas televisivos, nunca tinha se enveredado pelo mundo do cinema. Infelizmente, esse é um dos principais problemas nacional, que parece não querer enxergar que as duas mídias são diferentes, mesmo sendo ambas de audiovisual.

Não suficiente, o elenco parece perdido com o que tem na mão. Incomoda ver bons atores como Giulia Gam, Gero Camilo, Hermila Guedes, Vinícius de Oliveira, Cadu Fávero, Duda Ribeiro, Heitor Martinez, Juliano Cazarré, Tonico Pereira e Lima Duarte tentando de todas as maneiras transformar seus personagens em alguma coisa, sem muito sucesso. Mas nada é pior do que ver Milhem Cortáz, para mim o melhor ator brasileiro na atualidade, com tantas falas vazias de efeito e entregue a tentativas esdrúxulas de descrição do seu Barão. Enquanto isso, Eriberto Leão ganha muito mais falas do que precisava e tropeça no exagero de caras e gestos.

Aí chega a hora da montagem. A opção por uma narrativa não linear, com cara de tentativa de remendo, confunde e o pior acontece: a falta de suspense faz com que a história perca sua força e cause uma espécie de desconexão do espectador, que vê tudo sem o envolvimento necessário para aprovar a experiência.

Tá. Os problemas são muitos e os erros incontáveis, mas quantos filmes americanos são assistidos com erros similares. Quem já assistiu mais de um título de Steven Seagal ou Chuck Norris e mesmo Sylvester Stallone sabe do que eu estou falando. São filmes onde a inabilidade do diretor e dos montadores fica clara e o roteiro é só um papel onde frases ridículas foram jogadas sem muita preocupação com a ordem lógica. Esses filmes também são recheados de personagens vazios e, na maioria das vezes os atores não têm nem a metade da qualidade dos envolvidos nesse projeto. Então por que lá funciona e aqui não?

Porque, como todos os outros que vieram à cabeça ao ler o parágrafo anterior, Assalto ao Banco Central é um filme de ação. Ou pelo menos tinha que ser um filme de ação, já que estamos falando do maior assalto do país, com investigação, muitos bandidos estouradinhos trabalhando juntos, a escavação de um túnel, perseguições, interrogatórios e um clima que deveria ser de tensão crescente. Como bem se sabe, é um gênero que ainda está engatinhando no Brasil e  tropeços como Segurança Nacional, Federal e agora Assalto… explicitam a falta de timing, o mau uso de cortes rápidos e uma certa ineficiência com múltiplas câmeras.

Sem essa ação, o filme se perde em si mesmo. A falta de aptdão atrapalha, prejudica o resultado e incomoda. Mas em um cinema que pouquíssimas vezes conseguiu convencer com cinema de gênero (sim, estou falando de Tropa de Elite e sua sequência) é normal que as coisas sejam assim até que se aprenda a andar com as próprias pernas. Não que justifique, mas pelo menos explica.

Mas o buraco é muito mais embaixo. Se algo não segue a nossa tradição, não tem a cara tupiniquim que conhecemos, a primeira reação é repudiar. Ninguém quer que o cinema nacional seja igual ao americano, ainda que as melhores referências de filmes de ação sejam de lá. Mas também não admite e condena um filme que não esteja enquadrado em sua definição de thriller (ainda que essa definição seja totalmente baseada no cinema de lá).

Em seu novo caminho, o cinema nacional vai ter que aprender a conviver com a variedade, gostando ou não disso. Junto com o bom e velho cinema autoral, serão lançados filmes de público, com o principal objetivo de garantir uma parte do mercado. E para ter sucesso nessa nova realidade a concepção tem que ser diferente. O negócio não é ser diferente para concorrer com o igual, é saber ser igual, mas sempre se mantendo diferente. Temos capacidade e pessoal para isso. O que falta é consciência e vontade.

Voltando a este problema em Assalto ao Banco Central, por que cenas como a da cegonha não foram, pelo menos, desenhadas por alguém com mais intimidade com o cinema de ação? Até gosto bastante do trabalho de José Roberto Eliezer, mas porque não deixar a cinematografia a cargo de, por exemplo, Felipe Reinheimer, que filmou tão bem o assalto americanalhado de Márcio Garcia no curta Predileção?

Porque, de verdade, para falar de um dos crimes mais complexos do Brasil, o mais importante era mostrar a ação do bando, a entrada no cofre. A fuga da polícia e brigas internas só viriam acrescentar ao resultado final. A história pronta, só precisava ser contada com mais adrenalina e emoção. Uma pena!

Um Grande Momento

Apesar da história e do elenco excelente, o filme carece de um grande momento.

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