(Suffragette, GBR, 2015)

Drama
Direção: Sarah Gavron
Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Romola Garai, Anne-Marie Duff, Grace Stottor, Natalie Press, Meryl Streep, Brendan Gleeson, Geoff Bell, Shelley Longworth, Adam Michael Dodd, Sarah Finigan, Lorraine Stanley, Adam Nagaitis, Samuel West, Morgan Watkins, Adrian Schiller, Lisa Dillon
Roteiro: Abi Morgan
Duração: 106 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Seria lindo falar de As Sufragistas se o mundo fosse outro. Falar de todas aquelas conquistas se as estatísticas fossem diferentes e, apenas no ano de 2013, 4.762 mulheres não tivessem sido assassinadas apenas no Brasil, país que ocupa a quinta posição no no ranking de feminicídios, atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia.

Mas não é assim. O machismo ainda está entre nós. Matando duas jovens argentinas que viajavam juntas, mas estavam “sozinhas” por não terem um homem por perto; cultuando o estupro e culpabilizando a vítima em instituições de ensino superior; pagando salários menores para mulheres que exercem a mesma função que homens em grandes companhias; hostilizando, violentando e menosprezando quem está do lado apenas por não ser do gênero masculino.

Obviamente, as mudanças alcançadas por aquelas trabalhadoras do Reino Unido trouxeram avanços à causa feminina. Foram essas primeiras feministas que fizeram com que as mulheres fossem vistas menos como objeto e mais como seres humanos.

Mas isso foi no final do Século XIX. De lá para cá, apesar de outras mudanças e da confecção de leis de proteção e equiparação mais abrangentes e eficazes, a ideia de que a mulher é um ser inferior, que existe para servir aos desejos e necessidades do homem, nunca deixou de existir.

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Dirigido por Sarah Gavron (Brick Lane), As Sufragistas foca na luta daquelas mulheres simples e em suas conquistas, desconsiderando, de certo modo, o que nunca deixou de existir. Com atuações inspiradas, acompanhamos a vida de mulheres que abriram mão de tudo o que tinham por um ideal: demonstrar que não havia diferença entre elas e os homens e, por isso, estavam plenamente capacitadas para exercer seus direitos políticos.

Acompanhando um recorte específico na trajetória do movimento, o espectador vê como uma manifestação, a princípio pacífica, transformou-se em uma sucessão de ações violentas, com ataques a propriedades privadas, bombas em residências oficiais, truculência policial e quebra-quebra nas ruas.

As Sufragistas destaca principalmente a história de Maud Watts, vivida por Carey Mulligan (Drive), que depois de ver um primeiro ato interessou-se pela causa e a tomou para si. Naquela época, mulheres como ela tinham que se submeter aos chefes – em todos os sentidos – para continuar ganhando muito menos do que os homens que exerciam funções menos extenuantes; viviam na dependência do marido, fazendo apenas aquilo que ele quisesse e deixasse, e não tinham nem mesmo direito à guarda dos filhos.

Entregar-se a um movimento como esse era abrir mão de sua segurança, de seu emprego e família. Mas Maud e suas companheiras, sob a liderança de Emmeline Pankhust, como é sabido pela história, depois de algum tempo, chegaram onde queriam.

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Ainda que fale rapidamente de situações muito significativas – como o caso da alimentação forçada em greves de fome que chamaram a atenção da opinião pública à época – e dê mais atenção a fatos chocantes e, por isso, mais populares, como o ato de Emily Wilding Davison, o filme faz um bom retrato do movimento e tem seu valor, por contar uma história que todas as mulheres deveriam conhecer.

Tecnicamente, As Sufragistas é quadrado no estilo e, como esperado, tem um trabalho muito eficiente de representação de época, com desenho de produção assinado por Alice Normington (O Garoto de Liverpool), cenografia por Barbara Herman-Skelding (Mamma Mia!) e figurino por Jane Petrie (Lunar). Além disso, conta com a boa trilha sonora de Alexandre Desplat (Argo) e com uma direção eficiente, que sabe como despertar a empatia fundamental para o sucesso do longa-metragem.

O triste é que essa empatia não vem com o horror causado com a realidade que se vê e é tão diferente da atual; não é a mudança que traz o assombro, mas a manutenção. Apesar de alguma melhora em quesitos específicos e de alguma liberdade, assédios, desrespeito, salários menores e violência dentro de casa continuam acontecendo. Não mais da maneira normal e socialmente aceita como era antes, mas fazem parte do cotidiano feminino, da mesma maneira.

A jornada é longa e o importante é não desanimar e nunca deixar de lutar.

Um Grande Momento:
Emily.

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