(As Mil e Uma Noites: Volume 2, o Desolado, POR/FRA/ALE/CHE, 2015)

Drama
Direção: Miguel Gomes
Elenco: Luísa Cruz, Chico Chapas, Joana de Verona, Crista Alfaiate, João Pedro Bénard, Margarida Carpinteiro, Carloto Cotta, Pedro Inês, Adriano Luz. Carla Maciel, Teresa Madruga
Roteiro: Miguel Gomes, Telmo Churro, Mariana Ricardo
Duração: 131 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Com As Mil e Uma Noites: Volume 2 – O Desolado, voltamos às histórias que o diretor Miguel Gomes está contando a sua equipe para evitar a execução, mas, como no volume anterior, quem conta a história ao espectador é Xerazade, em mais uma brincadeira com a narração do diretor português.

As histórias, ainda intimamente ligadas com a crise de Portugal, assumem um ar de descrença com tudo o que existe e acontece no país, mas sem deixar de debochar da situação. As histórias deste segundo volume são: Crônica de Fuga de João “Sem Tripas”, As Lágrimas da Juíza e Os Donos de Dixie.

Em Crônica da Fuga de João “Sem Tripas”, um homem é perseguido pela polícia, mas consegue se esconder por muito tempo. Todo narrado em off, sem ser óbvio na narrativa, acompanhamos a jornada de fugitivo de Simão, um homem descrito como solitário e mau. Vemos seu encontro com uma senhora da região, que deixa bem claro que não tem medo dele, seus devaneios sexuais e muitas andanças. Arrastado, o episódio é talvez o mais fraco do volume, mas tem um desfecho bastante interessante, que demonstra a pouca credibilidade nas instituições de segurança pública.

As Lágrimas da Juíza é um dos melhores trechos de toda a trilogia criada por Miguel Gomes em seu As Mil e Uma Noites. O episódio começa mostrando o lado familiar, materno e machista daquela que veremos mais tarde presidindo o julgamento. Aqui a narrativa assume uma outra forma, transformando o filme em uma peça filmada do absurdo.

A juíza tem que resolver uma questão entre o proprietário de um imóvel e seus inquilinos, que venderam todos os móveis que estavam dentro do apartamento para sanar uma dívida. A história vai se desenrolado através das muitas conexões do caso com outras histórias que teriam ocasionado o evento. Como se todos estivessem um pouco implicados com o fato principal.

Gomes abusa da humor, um tanto irônico, e da fantasia, com direito a depoimento de vaca e oliveira, mas sem deixar de demonstrar a frustração da Justiça frente aos fatos que precisa encarar em uma sociedade que está se desmantelando.

Em Os Donos de Dixie, ao som de Tim Maia, somos levados por um fofo cachorrinho para as histórias de vida de dentro de um grande complexo habitacional, desses compostos por unidades populares. Dixie, parecido com o falecido cachorro da senhora que o encontrou, vai alegrar a vida das pessoas que com ele moram e estabelecer novas relações entre desconhecidos, mas nada que dure para sempre.

Além da história, Gomes faz uma viagem rápida por dentro do prédio onde Dixie está morando, revelando a vida de alguns dos moradores e os problemas com o local, que são esquecidos para trás, como um elevador que parou de funcionar e nunca mais foi consertado.

Depois de passar por uma lenta história de fuga e solidão, por uma peça teatral, com destaque para a atuação de Luísa Cruz (John From) como a juíza, e por um emaranhado de histórias de tristeza e pobreza que tem encontros fugazes com a felicidade, chegamos ao fim de As Mil e Uma Noites: Volume 2 – O Desolado.

Ainda que tenhamos vivido alguns momentos de humor e diversão, o sentimento ao final do filme é o de tristeza, com uma sensação de abandono e desolação, como sugere o título. Mesmo que a última cena seja bonitiha, o aperto no coração não vai embora fácil.

Um Grande Momento:
A vaca e a oliveira.

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