(Aquarius, BRA/FRA, 2016)
Drama
Direção: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Sonia Braga, Julia Bernat, Humberto Carrão, Barbara Colen, Paula De Renor, Maeve Jinkings, Fábio Leal, Buda Lira, Thaia Perez, Daniel Porpino, Pedro Queiroz, Carla Ribas, Irandhir Santos, Rubens Santos, Fernando Teixeira
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Duração: 142 min.
Nota: 10 ★★★★★★★★★★

Era de Aquarius. A tecnologia e a globalização que chegam com tudo. Mas o que podem fazer com as memórias, com o que vem antes e construiu aquilo que se é hoje? Com o nome do novo, um antigo prédio à beira da praia de Boa Viagem é onde vive Clara, uma jornalista e escritora, mãe de três filhos já adultos, que resiste bravamente às investidas – primeiro polidas e depois agressivas – de uma construtora local.

Em um jogo muito consciente de comparações entre o moderno e o antigo, Kleber Mendonça Filho constrói uma narrativa que não se limita só a isso, mas traz em si um emaranhado de pequenas histórias cheias de humanidade. A resistência de Clara é, sem dúvida, o ponto de destaque.

Sobrevivente de um câncer nos anos 80, ela agora quer manter o seu espaço em um mundo onde o dinheiro fala mais alto do que qualquer outra coisa, inclusive o dela. A batalha, que também precisa ser travada com a paciência e coragem do passado, é desgastante e, mais uma vez, com algo com o mesmo potencial de nocividade. O apagar do passado para uma modernidade que nem sempre faz sentido, mas é vendida como essencial.

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Vivida por Sônia Braga no presente e por Barbara Colen no passado, Clara traz em si uma potência impressionantes. O amor daquela mulher por aquele espaço, o seu no mundo, e pelas pessoas é intenso em todas as relações, mesmo quando estremecidas. Identificações não são raras no filme, principalmente quando o filme se volta para o lado mais familiar de Clara, uma avó dedicada e uma mãe que tem problemas com a filha do mesmo modo que tantas outras.

A questão da mulher é incrivelmente trabalhada. A força feminina de abarcar o mundo e ainda assim se dedicar especialmente a alguma realização, ou a sua persistência ao tempo e à vida, que tenta, de todas as maneiras, transformar aquilo que se foi um dia. Estouros, desejos, solidão, saudade e competitividade, assim como todas as nuances humanas de uma vivência, têm um lugar especial na história escrita pelo próprio diretor.

Quem conhece a obra de Mendonça Filho sabe que questões políticas e sociais não ficariam fora do filme. Além de todo o coronelismo por trás do mercado imobiliário recifense, já tratado em seu longa-metragem O Som ao Redor, há em Aquarius uma extensão dos efeitos dessa relação perniciosa de poder, na política e na imprensa. O eterno problema do abismo social também está presente, ainda que discretamente.

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Outra marca registrada do diretor está nas passagens de suspensão, mais uma vez aqui presentes em pesadelos. O clima de tensão criado por um inventivo uso da câmera e pelo preciso uso de penumbras.

Somando ao resultado final, está o elenco afiado, que traz Sonia Braga vivendo a Clara dos dias atuais, em uma atuação entregue e corajosa, despida de exageros e incertezas. Junto com ela estão Humberto Carrão, Irandhir Santos, Maeve Jinkings, Carl Ribas, Barbara Colen e outros nomes, todos muito bem em seus papéis.

Tecnicamente, o filme também acerta. A apurada direção de arte de Juliano Donelles e Thales Junqueira consegue recriar com propriedade os anos 80 e faz um trabalho muito interessante com o presente de Clara, tanto em memorabílias como no uso acertado de cores. O mesmo pode ser dito da fotografia de Pedro Sotero e Fabrício Tadeu, recheada de experimentações e boas surpresas.

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Outra preciosidade do filme é sua trilha sonora, recheada de canções deliciosas, como Another One Bites the Dust, Sentimental Demais, O Quintal do Vizinho, Toda Menina Baiana, Recife Minha Cidade e Sufoco. As músicas têm um papel de destaque na narrativa e costuram tudo o que se vê na tela

Aquarius é uma daquelas preciosidades que trazem muito do que existe dentro de cada um dos espectadores para dentro da tela, numa mescla de vários sentimentos. Ainda que se apegue fortemente ao ponto político da questão tratada, retrata o ser humano, o passar do tempo e a construção das relações e da vivência de cada um.

Para assistir e se entregar. Sem medo de que toda a expectativa gerada possa torná-lo mais fraco, pois a surpresa e o envolvimento chegam de qualquer maneira.

Um Grande Momento:
A dedicatória.

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