(Antes o Tempo Não Acabava, BRA, 2016)
Drama
Direção: Sérgio Andrade, Fábio Baldo
Elenco: Anderson Tikuna, Rita Carelli, Begê Muniz, Emanuel Aragão, Severiano Kedassere
Roteiro: Sérgio Andrade, Fábio Baldo
Duração: 85 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Em Antes o Tempo Não Acabava, Sérgio Andrade e Fábio Baldo voltam-se para a ruptura, a auto-afirmação. O momento em que, na busca por uma identificação própria, a tradição deixa de fazer sentido. Quando a vontade é se encontrar, rejeita-se o antigo e se busca um caminho rumo a uma personalidade que ninguém, naquele ponto da vida, sabe muito bem qual é.

O protagonista do filme é Anderson, um indígena da aldeia Tikuna, que não se identifica mais com os antigos rituais de sua tribo. Trabalhando como operário e cabeleireiro, Anderson quer ter seu nome de branco e quer se descobrir como indivíduo, em espaço, postura, sexualidade.

O longa-metragem, brevemente inspirado em histórias reais, faz um trabalho interessante ao misturar em uma mesma narrativa dois mundos muito afastados um do outro. As tradições indígenas dividem espaço com toda uma influência pop moderna. Logo no começo, um ritual de passagem é interrompido pelos créditos em cores vibrantes e música eletrônica. Beyoncé está ao lado de cantos indígenas, assim como a confecção da luva para o ritual está ao lado da montagem em série de aparelhos de ar condicionado.

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Até mesmo uma mística divindade, incorporada como um homem branco, loiro e vestido com uma camisa de estampa divertida, tem o seu espaço, numa sequência que também expressa todo sincretismo do longa.

Porém, nem todas as boas intenções e boas idéias conseguem superar alguns problemas graves do filme. Alguns deles estão mais ligados com a técnica, o tempo de cena e a condução dos atores, mas não são essas falhas que ficam. O tema é complexo e não há como se perder de vista o fato de que são dois homens brancos contando a história de um indígena. Não que isso não possa acontecer, já que há esse espaço de liberdade na ficção e nem toda história que se conta de um indivíduo deve corresponder a todo o grupo social em que ele está inserido.

Há uma certa ingenuidade no roteiro que entrega lugares-comuns pouco proveitosos à trama em si, como na confusa cena em que o pajé fala sobre rituais que farão Anderson “voltar a olhar para as mulheres”, ou na montagem, que pode conduzir o espectador à mensagem de uma espécie de cura gay. São situações que, por mais que se exista a segurança da criação ficcional, abordam o tema dando algum espaço à má interpretação.

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Antes o Tempo Não Acabava é um filme interessante, que funciona em sua complexa e corajosa mescla de realidades. Mesmo que tenha defeitos, merece ser assistido justamente pelo debate que ele provoca e que ganha força fora da sala de cinema, quando faz refletir.

Em um momento que se fala tanto em representatividade, um filme de ficção protagonizado por um indígena e que traz questões de uma tradição ancestral é muito mais inclusivo do que qualquer discurso que tenta encontrar preconceito no que acabou de ver. E, para constatar isso, basta pensar em quantos filmes você viu com um protagonista índio que vai além da questão da terra, do massacre branco, e enfrenta questões fundamentalmente humanas.

Um Grande Momento:
Batom.

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