Além das Montanhas

36ª MostraDrama
Direção: Cristian Mungiu
Elenco: Cosmina Stratan, Cristina Flutur, Valeriu Andriuta, Dana Tapalaga, Catalina Harabagiu, Gina Tandura, Vica Agache, Nora Covali, Dionisie Vitcu
Roteiro: Tatiana Niculescu Bran (livro), Cristian Mungiu
Duração: 155 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

(Dupa dealuri, ROM/FRA/BEL, 2012)

Antes de falar do filme é preciso relembrar a relação do povo romeno com a religião. Apesar de ser um país laico, sem religião oficial, a Romênia tem 93% de sua população declaradamente cristã – 86% seguem a igreja ortodoxa – e a influência religiosa é tanta que há cinco anos foi promulgada uma lei restritiva pelo atual presidente Traian Băsescu, definindo critérios para que uma nova religião fosse aceita como preferencial pelo Estado. Isso sem falar na presença da fé religiosa em instituições inusitadas, como centros médicos e academias de ensino superior.

Efeito da libertação pela qual passou o povo do país depois da execução de Nicolu Ceausescu, ditador que sempre proibira manifestações religiosas, o número de conventos, igrejas e fiéis ainda cresce no país. Este crescimento descontrolado e o fanatismo que ele gera acabam, claro, trazendo problemas em todas as áreas sociais. Mungiu, um observador atento das marcas pós-Ceausescu e pós-comunismo desde seu longa de estreia, Ocidente, até Contos da Era Dourada, passando pelo aclamado 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, volta seu olhar para o tema religioso em seu novo filme, baseado no romance de não-ficção “Deadly Confession”, de Tatiana Niculescu, publicado em 2006.

Nele, a jovem Alina vai procurar sua amiga Voichita, seu grande amor e com quem cresceu em um orfanato, mas esta agora faz parte de uma congregação religiosa e mora em um afastado convento da igreja ortodoxa. Completamente devota a Deus, purificada de seus pecados e dedicada à nova família, onde o padre e a madre superiora são tratados como papai e mamãe, a freira não tem intenção de acompanhar a antiga amiga em uma nova vida na Alemanha.

Com vontades diferentes, o desencontro das duas compromete a relação de ambas, mas esse acaba sendo o menor dos problemas, já que o sentimento obsessivo de Alina e suas ações consequentes, além de não serem compreendidos pela nova comunidade, acabam sendo interpretados como uma manifestação maléfica sobrenatural. Em uma espécie de transe coletivo, tudo que diz respeito à moça acaba sendo mal interpretado pelas freiras que com ela convivem.

Mungiu consegue aqui tratar do pequeno fanatismo na paixão doentia e do grande e mais nocivo, quando, na leitura de fatos por mentes condicionadas, comportamentos humanos e doenças psicológicas são interpretados como obsessão demoníaca. Em um país onde a sociedade substitui a ciência e a razão por dogmas e preceitos religiosos, a chance de eventos como o retratado no filme encontrarem um final trágico é quase absoluto. Cenas como a primeira visita ao hospital, com a médica plantonista receitando orações, ou o bombeiro socorrista que acende uma vela após o resgate são pequenas demonstrações de que alguma coisa está errada e o diretor faz questão de destacar isso.

O resultado geral provoca no público uma certa descrença na capacidade de discernimento do ser humano, por sua limitação e pelo quase incompreensível efeito que histórias criadas, por homens, livros sagrados ou cartilhas de confissão, podem causar, transformando pequenos pontos em manchas irrecuperáveis. É difícil confirmar que a sobriedade parece sempre chegar tarde demais.

Embora a maior força esteja em seu roteiro e na força do que narra, tecnicamente, o filme não perde oportunidades de criar um clima sufocante, seja nos planos longos e angustiantes ou na contraposição entre a paisagem gelada, muito branca e clara, e o calor e o desespero das cenas do ritual, onde sobresaem o escuro e o negro. Tudo maravilhosamente fotografado por Oleg Mutu, diretor de fotografia que esteve ao lado de Mungiu em 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e pode ter seu trabalho conferido em dois filmes desta edição da Mostra: Minha Felicidade e Na Neblina, da Perspectiva Sergei Losnitza. Destaque também para as atuações premiadas em Cannes de Cosmina Stratan e Cristina Flutur como as duas amigas, sempre muito bem em suas contenções e desesperos.

Independente de sua íntima relação com o ambiente do país de origem, Além das Montanhas é um pancada que não atinge somente os romenos. Ela pode até chegar lenta para alguns, mas vai permanecer e fazer pensar.

Um Grande Momento

O ritual.

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