(The Lady, EUA, 2011)

Drama
Direção: Luc Besson
Elenco: Michelle Yeoh, David Thewlis, Nay Myo Thant, Benedict Wong, Jonathan Woodhouse, Jonathan Raggett, Susan Wooldridge
Roteiro: Rebecca Frayn
Duração: 132 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Além da Liberdade trata da história da ativista Aung San Suu Kyi e todo o sacrifício que fez em prol do seu país, a Birmânia. A época de seu retorno àquele local e todo o período durante o qual ficou em prisão domiciliar, sem contato com a família, são expostos neste novo longa do francês Luc Besson.

Myanmar, como hoje é conhecida a Birmânia, é um dos países mais pobres do mundo. Está localizado ao sul da Ásia e tornou-se independente do domínio britânico em 1948. Teve como uma das grandes figuras durante este processo o General Aung San, que morreu assassinado um ano antes, mas é considerado o pai da independência da Birmânia.

Em 1948, o país passou a ser uma república democrática, porém, este período durou pouco. Após 14 anos de democracia, o General Ne Win comandou um golpe de estado e tomou o poder. A Birmânia passou a viver dias de miséria e repressões violentas, comuns nos regimes totalitários.

É importante contextualizarmos a situação política e econômica da Birmânia para dimensionarmos o feito da protagonista nesta produção dirigida por Besson. O diretor, por sinal, tem uma grande predileção por personagens femininas. Neste quesito, a história de vida Aung San Suu Kyi é para ele um prato cheio. Esta ativista é uma das grandes heroínas da sociedade atual. Travou, e trava até hoje, uma guerra sem armas de fogo. Munida de amor e fé, Suu, como é chamada, é o símbolo maior de Myanmar.

Filha do General Aung San, Suu (Michelle Yeoh, de Memórias de Uma Queixa) mudou-se para a Inglaterra ainda jovem e lá se casou com o professor Michael Aris (David Thewlis, da franquia Harry Potter). Mãe de dois filhos, Kim e Alexander, observava da Europa o que acontecia na sua terra natal enquanto preparava escritos sobre a vida de seu pai.

Uma repentina enfermidade de sua mãe, fez com que Suu retornasse imediatamente a Birmânia. Enquanto cuidava da genitora em um hospital, testemunhou um ato violentíssimo do governo, que mandou atirar contra estudantes que manifestavam contra a proibição de fornecimento de almoço nas universidades. A presença da filha do “pai” da independência birmanesa mexeu com os líderes da oposição, que se aproximam dela e discutem a criação de um partido a favor da democracia.

Do outro lado, o governo militar enxerga nisto uma ameaça ao regime instituído e começa a criar maneiras de manter Suu longe do país. Uma das ideias é convocar um referendo sobre o futuro político da Birmânia. O Genereal Ne Win acreditava que desta forma, tranquilizaria a população culminando com a volta de Suu para a sua vida na Inglaterra. Porém, a decisão dela foi liderar um movimento a favor de eleições livres. Assim nasce a Liga Nacional para a Democracia e Suu, outrora dona de casa em Oxford, passa a ser a grande esperança de toda uma nação.

É a partir deste acontecimento histórico, que o roteiro deixa apenas de tratar das questões políticas daquele país e passa também a focar na vida íntima da protagonista. Enquanto peregrina por diversos vilarejos em busca de engajamento, seus filhos e marido tentam manter a casa e a vida na Inglaterra em funcionamento. O filme ganha outro ritmo. Quanto mais se envolve nas questões políticas, mais distante vai ficando da família. E a distância é física mesmo.

Além da Liberdade conta duas histórias. A da heroína pela democracia e a mãe e mulher que passou anos sem ver a família que construiu. O ápice deste distanciamento acontece quando a Liga Nacional ganhou a maioria das cadeiras no parlamento birmanês e seus membros são perseguidos. Alguns mortos, outros presos. Aung San Suu Kyi só não foi morta pelo receio da ditadura em torná-la mártir da causa, inflamando ainda mais a população. A decisão foi então colocá-la em prisão domiciliar e seus familiares passaram a ter seus vistos negados.

Assim, paulatinamente, o drama pessoal cresce. Greves de fome como forma de protesto, atrocidades do governo contra a população. Mais vistos negados, crescimento dos filhos longe da mãe, lobby político para garantir a integridade física de Suu. Anos se passam neste compasso e finalmente o ideal defendido pela líder ganha voz internacional. Aung San Suu Kyi é nomeada Nobel da Paz em 1991. Prêmio que não foi receber por ser uma prisioneira política.

A cena da premiação foi filmada de forma belíssima. Com uma delicadeza extrema, Besson contrapôs o discurso dos filhos em Genebra com o sentimento da vencedora em sua prisão domiciliar. Porém, nem tamanha honraria foi suficiente para libertá-la. Como se já não bastasse tamanha abnegação, o estágio adiantado do câncer desenvolvido pelo seu marido coloca Suu diante do maior dilema da sua vida. O Governo permitiu que ela visitasse Michael na Inglaterra, mas era de conhecimento geral que se ela saísse do país, nunca mais teria autorização para retornar, o que, consequentemente, comprometeria a luta pela democracia.

Rebecca Frayn foi a responsável por escrever o roteiro de Além da Liberdade. Levou anos para pôr no papel a história sofrida, mas nem por isto menos espetacular, desta ativista política. Ela e o diretor tiveram grandes dificuldades em conseguir informações sobre o período retratado no filme. Besson precisou fazer viagem como turista para obter imagens da Birmânia. Muitas das pessoas que forneceram material para a produção continuam anônimas por motivos de segurança. Provalmente esta dificuldade seja a responsável por alguns problemas de roteiro.

As cenas que retratam o período em que Suu ficou exilada em sua própria casa são ritmadas e preenchidas com quadros mais líricos do que políticos. Muita coisa acaba sendo mostrada de forma superficial. O sofrimento de carregar o grande fardo de ser a esperança de uma nação e ao mesmo tempo não poder se doar à sua família não têm o peso dramático devido.

Estas falhas de roteiro, porém, são compensadas pela excelente fotografia e pela atuação precisa de Michelle Yeoh. A atriz cumpre com maestria a função de encarnar uma das grandes figuras do nosso tempo. O sofrimento silencioso, a mulher dividida entre família e país, a áurea iluminada de alguém que enxergou além das próprias dores. Tudo isto está presente na personagem construída por Yeoh. Méritos também para David Thewlis que soube entender a função de coadjuvante que Michael Aris teve na história da vida de Aung San Suu Kyi.

Em detrimento de tudo o que foi dito aqui sobre esta história, o que a torna tão incrível é o fato dela ser real e atual. Suu Kyi foi libertada apenas em 2010 e passou mais de dez anos sem ver os filhos. Em 2012 finalmente foi a Oslo fazer o discurso que não pode há 21 anos, quando recebeu o Nobel da Paz. Ela trouxe à luz, sem o uso da violência, problemas de um povo tão distante. Sua luta nunca foi pelo poder, mas pela liberdade.

Besson já nos brindou com diversas personagens femininas marcantes como Nikita, Joana d’ Arc e Mathilda, de O Profissional. Em Além da Liberdade, ele não deixa por menos. Utiliza a sua sensibilidade para lembrar de que por trás do ícone há alguém tão humano e frágil como qualquer um de nós. Alguém que luta com as únicas armas que possui: amor e fé. É com elas que supera tanto as dificuldades particulares, quanto as da nação que representa e continua seguindo em frente, como já disse Bono Vox em “WalK On”, canção dedicada a Aung San Suu Kyi.

Um Grande Momento
Quando enfrenta desarmada o exercito birmanês.

Além da Liberdade

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