(Adieu au langage, CHE/FRA, 2014)
Drama
Direção: Jean-Luc Godard
Elenco: Héloïse Godet, Kamel Abdeli, Richard Chevallier, Zoé Bruneau, Christian Gregori, Jessica Erickson
Roteiro: Jean-Luc Godard
Duração: 70 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Cultuado entre cinéfilos e estudiosos do cinema. Jean-Luc Godard foi um dos precursores do movimento Nouvelle Vague, ao lado de François Truffaut e outros diretores e teóricos que pretendiam desenvolver um cinema autoral, onde a marca do realizador fosse explicita e, posteriormente, reconhecida em cada produção. Aos 84 anos, Godard mantém uma carreira bastante ativa e, com o longa Adeus à Linguagem, retorna à costumeira postura provocativa e experimental.

Talvez experimental não seja bem a palavra para definir um filme de Godard, pois o diretor sabe o que está fazendo, não há nada acidental ou impensado, por mais diferente que pareça. Se o próprio título do longa não entrega os signos ou intenções do filme, a frase “aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade” nos alerta mais uma vez: estamos diante de uma narrativa visual e, portanto, sensorial, que vai nos exigir um pouco mais de interesse, complacência ou, tão somente, contemplação.

Adeus à Linguagem é o primeiro longa-metragem em 3D do diretor, depois de sua breve experiência com um dos fragmentos de 3x3D. Difícil definir uma sinopse que possa resumir o longa, com acontecimentos ou personagens. Trata-se de uma narrativa visual, cheia de sobreposições de imagens, enquadramentos variados e poucas vezes simétricos, cortes secos e trepidações nas imagens acompanhando o som que às vezes parece falhar ou sumir. Junto a isso, em alguns momentos, as legendas não são traduzidas, a pedido do diretor.

Os 69 minutos do longa beiram o limite do tempo para manter-se interessado a este jogo que Godard propõe. Entre achados e perdidos, é impossível ou pouco interessante, manter-se passível diante das imagens. Há sim a possibilidade da contemplação, já que nessa miscelânia de signos e “não-signos”, alguma belas imagens são alcançadas. No entanto, Adeus à Linguagem pede que seu publico participe de construções feitas pela costura de frases soltas, diálogos e sequências desconexas.

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Dessa forma, vemos um casal em profundas discussões sobre política, filosofia, literatura e artes em geral, temas recorrentes nos filmes do diretor. Num dado momento, o casal encontra um cão, do qual ela não quer se desfazer e, contra sua vontade, o homem o leva para casa. A partir daí, algumas imagens do cachorro são interpoladas à rotina e ao diálogos do casal. É o máximo que se pode dizer em termos de cronologia ou acontecimentos lineares. O forte e a intenção de Adeus à Linguagem não é a história, mas sim as diferentes tentativas e formas de comunicação, que, quase sempre apresentadas de forma incompleta ou torta, tentam concretizar-se.

A proposta do diretor para esse projeto nos dias de hoje, faz surgir duas situações: a ousadia e a teimosia de um cinema que não se dirige a um público passivo, ou melhor, destina-se justamente a esse, mas propõe uma parceria que talvez não se concretize. Se por um lado “surge” como algo diferente, pode parecer apenas estranho e em certo momento cansativo.

Fato é que Adeus à Linguagem não termina quando sobem os créditos, fica o convite para emergir na obra, ir em busca de suas referências ou conhecer a filmografia do diretor e, por que não, até mesmo o movimento da Nova Onda?.

Mesmo distante, às vezes hermético demais, o trabalho de Jean-Luc Godard, deixa rastros. É possível segui-los ou apagá-los. O público pode decidir.

Um Grande Momento:
Nascer do Sol filmado de dentro de uma quarto escuro.

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