(Clouds of Sils Maria, FRA/CHE/ALE, 2014)

Drama
Direção: Olivier Assayas
Elenco: Juliette Binoche, Kristen Stewart, Chloë Grace Moretz, Lars Eidinger, Johnny Flynn, Angela Winkler, Hanns Zischler
Roteiro: Olivier Assayas
Duração: 124 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A convivência entre diferentes; o tempo que passa; as gerações que se distanciam e não se entendem; a necessidade humana de alguém por perto. Construído em camadas, Acima das Nuvens conta uma história que contém muitas outras e, assim, envolve quem o assiste.

Maria Enders é uma atriz respeitada tanto no teatro, como no cinema. Ela conheceu a fama muito nova, aos dezoito anos, quando interpretou o papel de Sigrid, uma jovem que se relaciona com uma mulher mais velha. Uma homenagem ao autor da peça é o que nos leva até a história. Avesso a aparições públicas, Wilhelm Melchior, o dramaturgo, pede que ela o represente na cerimônia.

Junto à Maria, sempre está Valentine, sua assistente pessoal. É ela quem recebe telefonemas e cuida de tudo na vida da atriz, com dedicação e devoção. A relação entre as duas alterna entre a necessidade e o carinho, mas não faltam momentos tensos, com demonstrações de uma pretensa superioridade intelectual e um certo descaso com a falta de experiência.

Com a morte de Wilhelm, um jovem diretor teatral resolve fazer um convite à Maria: interpretar mais uma vez aquela peça de sua juventude, mas agora no papel de Helena, a mulher mais velha. Os sentimentos da atriz são os mais diversos. Ela tem aversão à outra personagem e não gosta da ideia de estar do outro lado de uma trama que é tão importante em sua vida. Mas, no fim das contas aceita.

Olivier Assayas (Depois de Maio), diretor e roteirista do longa-metragem, consegue envolver o público com seu roteiro cheio de nuances e tensões. E expõe a questão da subjetividade de qualquer obra, quando todos os personagens circundam a mesma peça e cada um tem a sua interpretação do que acontece naquele outro universo fictício, com personalidades e razões diferentes ao olhar de cada espectador. Espectadores esses que serão vistos por outros, nós.

Essa espécie de ciclo sem fim também acompanha a tensão entre Maria e Valentina com os ensaios da peça. Não se sabe muito bem onde está a realidade das duas e onde está a realidade das personagens que vivem. Há muito no texto do dramaturgo que pode ser percebido na relação estabelecida por elas e a dinâmica entre esses dois universos é eficiente. Sem falar no natural embate de gerações que aconteceria de qualquer jeito e ainda ganha ares de permanência com a entrada de Jo-Ann na história. Uma realização de que o tempo leva todos ao mesmo lugar.

Além disso, há no filme uma abordagem muito clara da dificuldade de Maria em lidar com a passagem do tempo. A atriz sofre por deixar de ser aquilo que era ou representava. Esse apego à juventude, nem de longe um problema apenas para aquela mulher que vemos, somado à completa falta de vontade de admitir que o tempo passou e mudou muita coisa, também se realiza muito bem.

A multiplicidade de questões e de camadas com que Assayas resolve trabalhar em Acima das Nuvens acaba sendo o diferencial do filme. A vontade de investigar aquele mundo e de acompanhar os acontecimentos é constante. Tudo está muito bem amarrado e muito bem montado para que isso aconteça. Mesmo que haja uma quebra no terceiro ato, com a entrada de uma outra personagem, menos profunda e, claro, menos interessante, mas essencial para a história. A partir de então, a submersão diminui, mas não existe comprometimento do resultado final.

Com tudo no lugar, Acima das Nuvens também deve muito de sua qualidade à interpretação precisa de Juliette Binoche (A Liberdade É Azul). Ela brilha em cena, seja alternando entre a arrogância de sua personagem primeira e o desespero da segunda; ou mesmo quando nada está fazendo. Como esperando alguém. Sem exageros, sem tentar marcar os personagens, mas apostando sempre em sutilezas, como olhares e pequenos gestos.

Sua assistente é vivida por Kristen Stewart (Crepúsculo). Apesar de ainda morder o lábio mais do que devia, a jovem atriz demonstra alguma segurança no papel e consegue, algumas vezes, aparecer, mesmo divindo o quadro com Binoche. Não é uma atuação incrível, mas é uma atuação muito melhor do que se esperava dela. Jo-Ann, a nova Sigfrid, é vivida por Chloë Grace Moretz (Kick-Ass – Quebrando Tudo). A atriz também não compromete, mas não surpreende.

Acima das Nuvens ainda conta com a belíssima fotografia de Yorick Le Saux (Amantes Eternos), que soube se aproveitar de toda a beleza do Cantão dos Grisões, e com uma trilha sonora que mistura Primal Scream a clássicos como Handel e Pachelbel.

Uma boa pedida, com toda certeza.

Um Grande Momento:
Esperando no quarto.

Acima das Nuvens_poster

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