(La Vénus à la fourrure, FRA/POL, 2013)

Drama
Direção: Roman Polanski
Elenco: Emmanuelle Seigner, Mathieu Amalric
Roteiro: Leopold von Sacher-Masoch (romance), David Ives (peça), Roman Polanski
Duração: 96 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Voltando à conhecida boa forma e demonstrando bastante curiosidade e uma certa intimidade – que é de todos – com o tema, Roman Polanski (O Deus da Carnificina) faz de A Pele de Vênus um passeio curioso e eficaz pelo mundo da dominação, usando a constante alternância de papéis em um jogo sem fim e para lá de interessante.

Em uma noite chuvosas, o espectador é conduzido a um teatro decadente de alguma rua de Paris. Lá conhece um decepcionado Thomas, dramaturgo que se aventura pela primeira vez na direção e não consegue encontrar uma atriz adequada para seu papel principal. Depois de ouvir suas lamentações ao telefone, Vanda, uma atriz que chegou atrasada para a audição, é apresentada.

Logo de cara, a atriz parece ter alguns dos defeitos já explicitados por Thomas na conversa prévia e, por deixar a entender que não tem nenhuma familiaridade com a peça, não o agrada à primeira vista. Mas o convence a fazer o teste e não só conhece todo o texto de cor, como é a pessoa perfeita para viver o papel.

A peça em questão é uma adaptação do romance “A Vênus das Peles”, escrito em 1870 por Leopold von Sacher-Masoch (que deu origem ao termo masoquismo), e conta a história de duas pessoas, Wanda von Dunajew e Sevérin von Kusiemski, que, em várias conversas sobre relacionamento amoroso, decidem que não é possível haver felicidade sem que haja uma relação de dominação. Wanda assume então o papel de dominadora e Sevérin, de escravo.

A brincadeira de Polanski já começa na adaptação cinematográfica da peça escrita por David Ives, que por sua vez é sobre uma peça adaptada de um romance. Nesse jogo de camadas, são vários os pontos a serem explorados, sempre tendo como mote o objeto de fascinação de Sacher-Masoch.

Criando um clima opressivo, pela limitação espacial, e pelo excelente uso da trilha sonora de Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste), e sem deixar de lado o erotismo, o diretor estende a análise da constante luta de forças nas relações humanas. Enquanto um domina, o outro é dominado, e nesse embate, Polanski coloca não só o casal, mas o diretor e a atriz, o texto e a atuação, o cinema e o teatro e, principalmente, o masculino e o feminino.

Com espaço restrito e a aura intimista do projeto, apenas a criação da tensão, o jogo de câmeras – sensacional, por sinal – e todo o aparato cênico não seriam suficientes para chegar ao esperado. Era preciso atores seguros e muito à vontade com seus papéis, exatamente como estão Mathieu Amalric (O Escafandro e a Borboleta), que vive Thomas/Sevérin em uma quase personalização do diretor em sua juventude, e Emmanuelle Seigner (Dentro da Casa), como Vanda/Wanda, em uma de suas melhores atuações da carreira.

A Pele de Vênus é um daqueles filmes que ficam com o espectador algum tempo depois que a projeção termina. Seja por sua qualidade técnica ou pela sacodida que ele dá ao falar das relações e dos jogos de dominação que a permeiam.

Um Grande Momento:
Thomas como Wanda.

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