(The Legend of Tarzan, EUA, 2016)
Aventura
Direção: David Yates
Direção: Alexander Skarsgård, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Margot Robbie, Sidney Ralitsoele, Djimon Hounsou, Jim Broadbent, Ben Chaplin
Roteiro: Adam Cozad, Craig Brewer
Duração: 110 min.
Nota: 2 ★★☆☆☆☆☆☆☆☆

Tarzan, o bebê que foi parar no meio da floresta depois de um naufrágio; foi criado por uma macaca após a morte dos pais, e se apaixonou por Jane, uma jovem que acompanhava o pai em uma expedição, volta essa semana às telas. Equivocado de principio, A Lenda de Trazan é dirigido por David Yates (Harry Potter e o Enigma do Príncipe) e traz Alexander Skarsgård (Battleship A Batalha dos Mares) como o novo rei das selvas.

A história começa após a reintrodução de Tarzan na sociedade inglesa. Já casado e senhor de Greystone, ele é procurado por uma comitiva do primeiro-ministro, representando o rei Leopoldo II, que diz querer demonstrar a ele os avanços em seu território no Congo Belga. Por trás do pedido há o sádico e maléfico Leon Rom, que existiu na vida real, como uma espécie de representante do país europeu na África e chefe das expedições em busca de riquezas naturais.

Com o belo visual do Gabão, representando a floresta da República Democrática Congo, e muito CGI na recriação da antiga Stanleyville e da fauna e flora das cataratas Boyoma, A Lenda de Tarzan erra em todos os outros pontos do longa-metragem. Há computação gráfica demais, muitas falhas no roteiro, personagens mal desenvolvidos, trilha sonora invasiva, enquadramentos equivocados, atuações fracas e, para complicar ainda mais, vários problemas éticos a serem apontados.

É complicado voltar à história de Tarzan em uma época onde a agenda positiva de inclusão e diversidade está tão em voga. Ele é um homem branco, criado por macacos, que se apaixona por uma branca filha de um estudioso que vai ensinar inglês para uma tribo local e volta para a terra natal onde Jane ensina Tarzan a ser civilizado. O resumo da história de vida do rapaz fala por si.

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O vilão do filme, Rom, vivido por Christoph Waltz (Bastardos Inglórios),é um homem externamente mal que não consegue esconder os traços afeminados, provavelmente conseguidos após uma vida de abusos, pelo que sugere o filme. Outra coisa bem difícil de engolir e, outra representação negativa de uma minoria.

Nada que não funcionasse lá atrás, quando os filmes de Johnny Weissmuller ou o seriado de Tarzan faziam sucesso, ou até mesmo na época mais recente, quando Disney fez sua versão da história. Não havia uma atenção tão latente a questões que sempre contaminaram a história e hoje não poderiam estar mais presentes. O melhor era adaptar, ou deixar pra lá.

O filme não deixa e ainda faz pior. Não satisfeitos, os roteiristas Adam Cozad (Operação Sombra – Jack Ryan) e Craig Brewer (Ritmo de um Sonho) criam um personagem – George Washington Williams, vivido por Samuel L. Jackson (Os Oito Odiados) – para ser uma peça fundamental na salvação do Congo Belga. Ele, obviamente, é estadunidense e não tem nenhum interesse nas riquezas do local, mas sim na salvação do povo nativo que estava sendo escravizado. Aquele mesmo discurso do Tio Sam salvador que estamos acostumados a ver por aí, justificando guerras e invasões pelo mundo afora.

São discursos e representações equivocados que, além de serem motivos suficientes para condenar o filme, ainda fazem com que todas as falhas técnicas e de atuação saltem aos olhos. Fora a sempre inspirada atuação de Jackson, alguns acertos visuais e a explorada forma física de Skarsgård, nada se salva no filme.

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Mal costurado, externamente superficial e com problemas de todas as espécies, A Lenda de Tarzan ainda traz uma das cenas mais constrangedoras de todos os tempos: a comemoração ao final do filme, que só deve funcionar para quem não conhece a história da República Democrática do Congo, que realmente deixou de pertencer a coroa belga quando os métodos de exploração foram divulgados e chocaram o Ocidente.

Mesmo depois disso, o país ainda teve que passar pelo sequestro e assassinato do primeiro presidente democraticamente eleito (ação coordenada com a ajuda dos EUA, vejam só) e a ditadura de Mobuto, que perpetuou o país como o mais pobre do mundo, a despeito de toda a riqueza de seu território.

Pior, o lugar vive até hoje uma história de miséria, escravidão e guerra civil infinita, cheia de chacinas de homens, estupros de mulheres e sequestros de crianças. Até hoje foram mais de seis milhões de pessoas mortas ou desaparecidas por causa do conflito. O número só é superado pela Segunda Guerra Mundial.

Um equivoco completo. Constrangedor.

Um Grande Momento:
Quando a luz da sala se acende.

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