(A Nightmare on Elm Street, EUA, 2010)

Drama
Direção: Samuel Bayer
Elenco: Jackie Earle Haley, Kyle Gallner, Rooney Mara, Katie Cassidy, Thomas Dekker, Kellan Lutz, Clancy Brown, Connie Britton
Roteiro: Wes Craven (personagens), Wesley Strick, Eric Heisserer
Duração: 95 min.
Nota: 3/10 ★★★☆☆☆☆☆☆☆
Desde o lançamento do primeiro filme da franquia em 1984, “A Hora do Pesadelo” é considerado um marco da reinvenção do gênero horror slasher, estilo de filme envolvendo um assassino psicopata que mata aleatoriamente, geralmente com uma máscara ou fantasia. Criado pelo diretor Wes Craven (responsável também pela trilogia “Pânico” e “A Maldição do Mortos-Vivos”), o filme que revelou Johnny Depp permaneceu como uma das melhores obras de terror dos anos 80.

A grande novidade trazida pela saga foi a inventidade e o pioneirismo da proposta, que estimulava a percepção do público ao explorar as fronteiras entre o real e o imaginário. Transformar o sonho, acesso direto ao inconsciente, em garantia de morte, permitiu a Craven explorar o medo no cinema a partir do próprio repertório pessoal do espectador, o que certamente é um grande mérito.

De quebra a franquia ainda criou um dos maiores ícones do gênero e da cultura pop, o maníaco Freddy Krueger, um assassino de crianças e adolescentes que morreu queimado vivo, e que por vingança passa a atormentar em sonhos os adolescentes da célebre Rua Elm onde praticava seus crimes em vida. Para suas vítimas, conseguir acordar representa a sobrevivência, e a morte nos sonhos é a certeza de morte na vida real.

Após 26 anos do início da saga, 9 filmes e 3 séries de TV, os produtores Bradley Fuller e Andrew Form (que também são responsáveis pelas refilmagens de “Sexta-Feira 13”, “O Massacre da Serra Elétrica” e “Horror em Amityville”) juntamente com Michael Bay, resolveram apostar na volta do famoso vilão no filme novamente chamado “A Hora do Pesadelo”.

Se as muitas seqüências ao primeiro filme foram enfraquecendo a idéia original e reduzindo Freddy Krueger a uma mera caricatura, a nova produção conseguiu ainda transformar a saga em mais um terror teen previsível e repleto de clichês. Considerado, desde o princípio, um erro até mesmo pelo criador da franquia, o filme tem recebido duras críticas desde sua estréia nos EUA, assim como outras refilmagens atuais de clássicos de terror nos anos 80.

O enredo segue a mesma lógica do primeiro filme da série: um grupo de jovens passa a sonhar com uma figura estranha de rosto deformado e garras metálicas, e são assassinados durante o sono. A medida que os casos de morte aumentam, os sobreviventes correm contra o tempo para investigar os fatos e descobrir como impedir que Freddy Krueger continue sua chacina.

No primeiro longa-metragem de Samuel Bayer, diretor de bons videoclipes de diversas bandas de rock como Nirvana, Metallica, Aerosmith, Green Day, Ramones e outros, logo percebemos que existe uma grande diferença entre a direção de um clipe musical e a de um longa-metragem. Sem ritmo, com um elenco fraco nas mãos e apoiado por um roteiro de gosto duvidoso, Bayer se perde desde o início do filme, recorrendo a todas as obviedades dos suspenses adolescentes que Hollywood pratica nos dias atuais. Falta criatividade e sobram sustos fáceis nessa obra que não honra a versão clássica homônima.

A direção investe principalmente no banho de sangue e comete o erro de abrir mão daquele que foi um dos maiores trunfos da obra original: a tênue e por vezes invisível fronteira entre sonho e vigília. Ao invés de mesclar o onírico com a realidade trazendo ao espectador a sensação de que a ameaça vivida no pesadelo é concreta, os sonhos são claramente demarcados por efeitos especiais e até mesmo com uma perceptível mudança na direção de arte. Na atual versão não resta dúvidas de que as vítimas de Krueger estão de fato dormindo.

Até mesmo a mais interessante característica do macabro protagonista é abandonada sem pudores pelo roteiro de Eric Heisserer. O humor negro que caracterizou personagem outrora interpretado por Robert Englund dá lugar apenas ao ódio puro e simples. Se, como ocorreu em “A Hora do Pesadelo 4: Mestre dos Sonhos”, Freddy era capaz de se vestir como cirurgião apenas para explorar sadicamente os traumas sufocados no inconsciente de seu alvo, agora o vilão parece não ter muito mais tempo para seus jogos sádicos.

O atual intérprete de Krueger, Jackie Earley Haley, que já foi indicado ao Oscar por “Pecados Íntimos”, faz um bom trabalho e é o único destaque do desconhecido elenco recheado de adultos sem talento interpretando teenagers sarados. Ainda assim, é impossível evitar comparações com Englund e o enorme carisma que emprestava ao personagem nos anos 80, apesar de Haley estar claramente engessado pelas limitações do roteiro no novo filme. Vendo por este ângulo, o melhor trabalho do filme ainda é consideravelmente inferior ao da versão original, o que leva a questionar o real valor deste remake.

Tecnicamente o filme não compromete. A fotografia de Jeff Cutter é competente e a equipe de maquiagem de Karen Lynn fez um interessante trabalho recriando o rosto de Freddy Krueger a partir de retratos de pessoas queimadas, promovendo uma abordagem mais realista ao menos na aparência do famoso maníaco dos sonhos.

Ignorando detalhes típicos da franquia que ajudaram a celebrizar um dos maiores ícones do cinema de horror, como a ironia cruel de Krueger ou mesmo a pouco citada Rua Elm que dá nome ao filme no título original em inglês, a versão 2010 de “A Hora do Pesadelo” desperdiça sem remorsos o imenso potencial da abordagem onírica no cinema. Se por um lado os jovens personagens lutam com todas as forças para evitar cair no sono durante o filme, o mesmo não se aplica ao público na sala de cinema. Já os resistentes, amantes da saga ou de gosto mais exigente, poderão testemunhar durante a sessão uma autêntica hora do pesadelo.

Um Grande Momento

Quando os créditos começam a subir.

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