(​The Big Short​, ​EUA, ​2015)

Comédia
Direção: ​Adam McKay
Elenco: ​Ryan Gosling​, ​Christian Bale​, ​Steve Carell​, ​John Magaro​, ​Finn Wittrock​, ​Brad Pitt​, ​Jeremy Strong​, ​Rafe Spall​, ​Hamish Linklater​, ​Marisa Tomei​, ​Tracy Letts​, Melissa Leo​, ​Anthony Bourdain​, ​Selena Gomez​, ​Margot Robbie​, ​Tony Bentley
Roteiro: ​Michael Lewis​ (livro), ​Adam McKay​, ​Charles
Randolph
Duração: 130 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Para aqueles que não gostam de economia e, mais especificamente, de mercado, assuntos relacionados passam longe de ser conhecidos e, quando enfrentados, não demoram a ser taxados de chatos e pouco cativantes. Então, como fazer com que o público de um filme essencialmente sobre o assunto fique sentado na cadeira, envolvido com o que está vendo? Adam McKay, conhecido por suas comédias Tudo por um Furo e Quase Irmãos, com seu A Grande Aposta, parece ter acertado a resposta.

Para falar de subprime, swap, CDSs, CDOs, single tranche, taxa de juros, hipoteca, moratória, seguros, classificação de nível de investimento, agências classificadoras e um monte de outras coisas ausentes do universo da maioria de seus espectadores, o diretor, que ao lado de Charles Randolph (Amor e Outras Drogas) assina o roteiro, usou o caminho mais lógico. Começando com a figura de um narrador, que apresenta os personagens e demora a se revelar ao espectador, e mesclando situações atuais com flashbacks dos momentos da infância ou do passado de seus personagens principais.

Ele escolheu também o ritmo mais frenético, aquele que deixa poucas opções a quem assiste ao filme além de grudar os olhos na tela e prestar atenção em tudo o que vê. Outra jogada acertada de McKay é o modo como ele trabalha as elipses de tempo, jogando – também freneticamente – na tela vários ícones das décadas de 80 e 90 que serão facilmente reconhecidos pelo espectador e, alguns deles, farão seu papel de memorabília, trazendo a quem o vê o conforto da nostalgia. O recurso é utilizado algumas vezes durante o filme e funciona bem.

Mas ainda havia o problema dos temas tratados. Mesmo cercado por várias coisas interessantes, o que se fala é antipático à maioria. Então o diretor resolve derrubar a quarta parede e deixar o espectador “participar” de tudo o que acontece, com direito a esclarecimentos de algumas passagens técnicas mais complexas por atores que não fazem parte da trama, e a antecipações de possíveis interações.

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A Grande Aposta é adaptado do livro “A Jogada do Século” de Michael Lewis, sobre a construção das bolhas imobiliária e de crédito nos Estados Unidos, que acabaram gerando uma das maiores crises financeiras da história do país, com efeitos nas economias de todo mundo. O autor separa algumas das pessoas que previram a catástrofe para contar esta história.

O longa-metragem faz o mesmo, concentrando sua trama em quatro ramos: os gestores de fundo de cobertura (com operações de altíssimo risco) Michael Burry e Mark Baun; o trader Jared Vennett e os jovens investidores Charlie Geller e Jamie Shipley, ajudados de perto pelo ex-banqueiro ​Ben Rickert​. Enquanto o socialmente arredio Burry é quem descobre o rumo do mercado imobiliário, todos os outros se aproveitam de alguma maneira desta descoberta para também investir pesado no fracasso econômico que estava por acontecer.

Embora também se dedique a pontuar o lado pessoal de seus personagens, o diretor se dedica mais ao esclarecimento da construção da crise. Os espectadores já estão familiarizados com tudo o que veem e entendem do que se está falando, e o ritmo e o humor foram estabelecidos, mas o longa-metragem não chegaria onde chegou se não contasse com excelentes atuações. Ryan Gosling (Drive), Steve Carell (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo) e Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo) estão muito bem como Vennett, Baun e Rickert, respectivamente, mas é Christian Bale (O Vencedor) que rouba a cena como Michael Burry e seu olho de vidro e Síndrome de Asperger.

Muito diferente do que os primeiros minutos anunciam, A Grande Aposta vai crescendo com o tempo de projeção e consegue envolver o espectador de maneira realmente impressionante. Mesclando técnicas tidas como batidas e, por muitas vezes, facilitadoras no processo de criação de um filme, Adam McKay demonstra que existem momentos em que elas tornam-se necessárias. E usá-las todas juntas, da forma como fez, com apuro, conhecimento e pertinência, transforma o que poderia ser algo maçante em diversão pura e simples. Só por isso sua direção já merece destaque.

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A Grande Aposta é um filme sobre uma crise que todos viram acontecer, com detalhes técnicos muito pouco conhecidos pela maioria, mas que escancara aquilo que já estamos cansados de saber que acontece no mundo capitalista, com arranjos, maquiagens, classificações interesseiras e pouquíssimas pessoas pagando pelo mal que fazem. O que importa é ganhar, e dane-se quem perde com isso. Em qualquer lugar do mundo.

Um Grande Momento:
A conversa com Mr. Chau.

Oscar-logo2Oscar 2016 (indicações)
Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Ator Coadjuvante (Chistian Bale)
Melhor Montagem (Hank Corwin)

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