(La Délicatesse, FRA, 2011)

Comédia
Direção: David Foenkinos, Stéphane Foenkinos
Elenco: Audrey Tautou, François Damiens, Bruno Todeschini, Mélanie Bernier, Joséphine de Meaux, Pio Marmaï
Roteiro: David Foenkinos
Duração: 108 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Nathalie Kerr (Audrey Tatou) é uma jovem viúva que tenta seguir em frente e reconstruir sua vida após a perda do marido. Ela mergulha no trabalho, tornando-se uma funcionária compulsiva. Eis que, preparada ou não, a vida lhe traz um novo amor e demonstra que a delicadeza dos sentimentos está muito além do que se vê.

Dirigido pela dupla David e Stéphane Foenkinos, A Delicadeza do Amor possui todos os ingredientes de um filme clichê, carregado de simbolismos e lições sobre como a vida pode nos surpreender depois de uma grande perda. O roteiro – baseado no livro do próprio David Foenkinos – trata exatamente desta questão e chega às telas na forma de poema audiovisual.

Nathalie e François (Pio Marmai) formam o casal dos sonhos. Eles representam aquilo que as pessoas esperam ter. Tudo é impecavelmente perfeito em suas vidas. Vivem num conto de fadas, são lindos, apaixonados, companheiros e cúmplices. Os momentos iniciais do filme passam a impressão de que estaremos diante de mais uma história protagonizada por Amelie Poulain. A fotografia, a construção das cenas, o humor e a narrativa como fábula, são parecidas nestes momentos em que somos apresentados à história de amor do casal.

Após a morte do marido em um acidente, todo o ar de felicidade e fantasia que Nathalie carregava dão lugar a uma mulher que decidiu se trancar na infelicidade. Submersa no trabalho, ela logo alcança um posto de comando na empresa sueca onde trabalha. Em um dia como qualquer outro de trabalho, o ato impulsivo de beijar um colega sem maiores explicações dá início à deliciosa, confusa, inesperada e delicada relação entre ela e Markus Lundl (François Damiens).

Markus é um sueco que mora em Paris. Alto, desengonçado e tímido, faz o tipo esquisito, lembrando os personagens de Will Ferrel. Ele vê sua vida e seu coração virarem de ponta cabeça quando Nathalie o beija. Apesar de não entender o motivo do gesto, decide conquistá-la. Se François é a representação do homem perfeito (e que só existe nos filmes), Markus é o real. Complexo e humano, vive a ansiedade de não saber como se comportar diante do objeto do seu afeto. Ganha o público exatamente pela identificação. O medo de “fazer algo errado”, os momentos de fantasia quando pensa em Nathalie, a motivação de que sim, é possível ficar com ela, inspirado em um discurso de Barak Obama visto na TV, são situações que vivemos todos os dias quando estamos apaixonados.

Através da citada delicadeza do título do filme, uma relação de encantamento vai surgindo. Aos poucos, vemos que as personalidades de Nathalie e Markus vão muito além da viúva triste e do “weirdo” apaixonado. Mas é assim que as pessoas de foram os vêm. Os diretores não poupam esforços para deixar isto bem claro. Os personagens secundários da obra estão ali exatamente para isto. Existe um pesar, um luto dos amigos e familiares de Nathalie, uma espécie de lamentação velada por algo tão especial e mágico que ela tinha com o marido e que desapareceu tão rapidamente por obra do destino, que nenhum de nós controla.

Quem também ajuda o espectador nestas descobertas é Charles (Bruno Todeschini), chefe de ambos. Admirador de Nathalie, ele quer, de qualquer maneira, conquistar a viúva. E-mails assediando-a, convites para jantares caros, galanteios… nada disto parece surtir efeito, o que o deixa mais indignado quando descobre a afeição dela por Markus. Na tentativa de entender, vem a clássica questão: por que ele e não eu? Gancho usado para levar ao público outra pergunta.

Intencionalmente, Markus é mostrado em algumas situações muito parecidas com as que François vivenciou no filme. Desde os encontros românticos numa cafeteria contra o jantar em um restaurante quase muito brega japonês, até a forma como o marido se veste para ir correr comparado a um sueco sem jeito e estilo que se arrisca na atividade física. Por que Markus então?

Esta é a pergunta que todos se fazem. Menos Nathalie. Há uma cena onde ele diz que estar ao lado dela o permite ser a melhor versão dele. Talvez seja isto que ela tenha visto nele antes de qualquer um, inclusive dele próprio. Na verdade, não há nada de errado com ele. Em nenhum momento ele deixou de ser o que foi desde o começo da projeção: gentil, cavalheiro, divertidíssimo e sensível. A moral da história está na nossa invariável falta de disposição em nos permitirmos conhecer melhor as pessoas.

Não se engane pela simplicidade do tema. A Delicadeza do Amor caminha com maestria por cima dos clichês. É uma produção bem equilibrada que possui uma fotografia belíssima, ajudada por uma cidade igualmente bela e que transforma muitas cenas em cartões postais. Além disso, a opção pela câmera na mão nos momentos em que Nathalie está ansiosa, com quadros trêmulos, é a metáfora perfeita para demonstrar a agitação interna da personagem.

A trilha sonora foi feita sob medida e é executada pela voz delicada e firme de Émilie Simon (A Marcha dos Pinguins).

A atuação de François Damiens merece elogios. Ele construiu um personagem com timming correto entre a comédia e o romance. Transmite com segurança toda a angústia, medo e alegria que Markus vivencia ao lado da amada, mesmo com o desafio de levar isto de forma bem-humorada à tela, sem cair na tentação de cometer exageros. A missão de Audrey Tatou é mais complicada. É muito difícil dissociar o jeito Amelie Poulain de suas interpretações, principalmente quando a obra em si traz elementos similares aos do filme de Jean-Pierre Jeunet. Mas ela tenta e, acredite, consegue em muitos momentos.

Nathalie Kerr emoldura o cartaz promocional de A Delicadeza do Amor. Está lá linda, vestida de vermelho, a cor da paixão. Mas a obra, no final das contas, é sobre alguém que não está lá. Aquele que ninguém sonhou em ter, mas que personifica a possibilidade de voltar a amar.

Um Grande Momento

“Olhe ao redor, vou me apaixonar.”

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