36ª MostraDrama
Direção: Thomas Vinterberg
Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport, Ole Dupont
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Duração: 115 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆
(Jagten, DNK, 2012)

Thomas Vinterberg ficou famoso mundo afora por seu filme Festa de Família, o primeiro a seguir as regras do movimento Dogma 95, manifesto escrito por ele e pelo realizador compatriota Lars Von Trier, que buscava um cinema mais realista e menos comercial. Agora, mais maduro, ele volta às telonas com A Caça, um filme que, entre qualidades e defeitos, sabe como ser perturbador.

Desde os primeiros momentos do longa, o público é apresentado à Lucas, um professor de jardim de infância dedicado e tímido que sofre com a ausência do filho depois de uma separação atribulada, e é impossível não se afeiçoar a ele. O vínculo criado é o mesmo que todos os moradores da cidade parecem ter com ele.

As coisas começam a mudar depois que Klara, filha do melhor amigo de Lucas, confunde seus sentimentos e, frustrada pela rejeição, inventa uma história e a conta para a diretora da escola, sem a menor noção das consequências de seu ato. Essa pequena calúnia não é algo que pode ser esquecido ou ignorado e a falta de jeito para lidar com o assunto torna tudo cada vez pior e, pouco a pouco, vai destruindo a vida de Lucas.

Incisivo, o longa desperta sentimentos contraditórios na cabeça de quem o assiste. Diferente da história de Michael Haneke que vilanizava crianças em uma comunidade pré-Segunda Guerra em A Fita Branca, aqui há uma percepção muito clara de que, como os adultos, os pequenos não são imunes à raiva e à frustração e podem usar a imaginação e algum conhecimento indevido para sua idade para fazer o mal, ainda que não tenham a maldade no coração.

Como espectadores, temos o benefício de conhecer os fatos e, assim, conseguimos nos distanciar da fúria contra o professor, ainda que fique muito clara a percepção de que se estivéssemos na mesma situação dos personagens faríamos parte dessa mesma cruzada contra o malfeitor. Enquanto sabedores, sentimos raiva da educadora que não consegue falar sobre sexo sequer para contar o que acredita ter acontecido à mãe de Klara; ficamos angustiados com o interrogatório civil que chega a ser desrespeitoso com a criança; ficamos indignados com o brutamontes covarde que não ataca o provável “causador de todo o mal”, mas se vinga em seu filho adolescente; e, acima de tudo, nos apiedamos de Lucas, não só pelo que passa, mas porque sabemos o que esperar de situações assim.

Tecnicamente, Vinterberg também não poupa o espectador e, brincando com a luz, a cor e a alternância de planos, faz o que é possível para deixar o clima ainda mais pesado, sempre deixando a experiência próximas ao limiar do insuportável, ainda que respeitando-o para que o público não se perca.

Um dos pontos altos do longa, sem nenhuma dúvida, é a atuação precisa de Mads Mikkelsen. Distribuindo em si a apatia, a insegurança e o medo, sem deixar de ser cativante, ele praticamente domina o filme. A sinceridade de sua postura de descrente e de seu olhar de desespero são fundamentais para que a experiência seja tão avassaladora. Junto com ele, todo o elenco também se mostra muito competente, inclusive a pequena Annika Wedderkopp e sua naturalidade diante das câmeras e a capacidade de transmitir sentimentos com seu olhar em momentos mais pesados, de culpa, arrependimento ou confusão.

Mesmo que seja tão forte e tão perturbador, A Caça tem os seus tropeços. Um deles é a construção dos muito bem resolvidos conflitos. Desde o início até o desenrolar do evento, alguma coisa pode parecer rápida e inquestionada demais, mas nada que seja tão grave quanto o desfecho gratuito e nada equivalente à tensão construída durante toda a trama. O uso de letreiro que expõe o passar de um tempo já determinado durante a trama e uma cena final que vem contar o que já era notório são desrespeitosos e sacam o público da história de forma abrupta e frustrante.

Ainda que seja esdrúxulo, o final não consegue diminuir a pancada que vem com o filme e não diminui as emoções extremas que permanecem com o público até muito tempo depois.

Difícil não se lembrar da triste história da Escola Modelo aqui no Brasil e, mais uma vez, lamentar pelo mal que foi feito a cada um seus sócios.

Um Grande Momento

Celebrando o natal.

Links

No IMDb