(À Beira do Caminho, BRA, 2012)

Drama
Direção: Breno Silveira
Elenco: João Miguel, Vinícius Nascimento, Dira Paes, Ângelo Antônio, Ludmila Rosa, Denise Weinberg
Roteiro: Patrícia Andrade
Duração: 105 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Canções que fizeram sucesso na voz de Roberto Carlos servem como inspiração para contar a história do mais novo longa-metragem do diretor Breno Silveira. Um caminhoneiro que não consegue seguir em frente, um garoto que quer reencontrar o pai que o abandonou no passado e todas as coisas que devemos e as que não conseguimos deixar ao longo da estrada.

João (João Miguel) é um homem solitário, carrancudo, que parece carregar nas costas muito mais peso do que transporta na carroceria do caminhão que dirige pelo interior do Brasil. Vive eternamente em movimento, sem destino certo, à mercê das entregas que é contratado para fazer. A vida deste homem que se refugia às margens das cidades na tentativa de esquecer o que viveu, cruza com a do menino Duda (Vinicíus Nascimento), que se lança pela estrada não para escapar, mas sim para encontrar o passado.

Enquanto percorrem quilômetros através do asfalto, as verdadeiras e indispensáveis viagens estão sendo feitas no íntimo de cada um. Na jornada desta dupla, as canções do rei Roberto tem papel fundamental na construção da trama. O título do filme é inspirado na canção ‘Sentando à Beira do Caminho’, outras músicas como ‘Esqueça’, ‘Amigo’, ‘Nossa Canção’, ‘O Portão’ são tocadas na obra. Algumas executadas por outros intérpretes, como Vanessa da Matta, Nina Becker e os protagonistas João Miguel e Vinícius Nascimento. Elas sempre “aparecem” para potencializar o drama e o que está sendo contado em algumas cenas.

Em muitos momentos, a escolha de determinadas músicas acaba sendo mais do que óbvia, mas apesar da falta do elemento surpresa, o uso deste recurso funciona no filme. Cumpre o seu papel, pois, se não chega a emocionar tanto o espectador quanto os personagens se emocionam, de certa forma dá a dimensão das marcas e feridas que cada um carrega consigo. Neste quesito Roberto Carlos é mestre, com as letras simples e populares, sabe como tocar em questões profundas.

As interpretações são a grande qualidade do filme. Um inspiradíssimo João Miguel consegue criar dois personagens em um só: o João do passado e o do presente. É bem nítido como diferem suas características emocionais e físicas, dependendo da fase da vida em que se encontra. A sua história é mostrada aos poucos, via flashbacks e as revelações mais importantes só aparecem bem lá no final. O outro protagonista de À Beira do Caminho é um menino de onze anos de idade que irradia doçura em tela através dos seus olhos brilhantes e sorriso arrebatador. O Duda de Vinícius Nascimento possui marcas na alma similares às de João e compartilha com ele aquilo que chama de pior sentimento do mundo: a saudade. As cenas do menino são cativantes, a vontade é de arrancá-lo da tela e colocá-lo no colo.

Mas não se engane, é Duda o responsável por confortar João e todos os espectadores que se identificam com os sentimentos expostos. Este é um grande acerto do roteiro escrito por Patrícia Andrade, dar voz de mentor a uma criança, invertendo os papéis costumeiros de que quem ensina é o mais velho, o mais experiente. A sede de viver, a esperança e a sabedoria contidas em sua ingenuidade infantil vão, aos poucos, funcionando como bálsamo para João. Extremamente verossímil, a atuação de Vinícius é marcante. Completam o elenco Dira Paes, Ludmila Rosa, Angelo Antonio e Denise Weinberg. Os quatro, mesmo em participações menores, são peças chaves para o andamento da história.

Apesar de bem amarrada, a trama peca pela obviedade, por alguns clichês e pelos mergulhos no melodrama. O que não é surpresa, uma vez que o diretor Breno Silveira é o mesmo de 2 Filhos de Francisco e Era Uma Vez…, filmes igualmente recheados com estes elementos. Porém, não deixa de ser uma produção muito boa. O peso da mão do diretor nas cenas dramáticas não compromete o resultado final e a obra acaba tendo mais qualidades do que defeitos. No final das contas, o grande legado de À Beira do Caminho é o de ser uma metáfora interessante sobre escolhas e ajustes na rota da vida e sobre seguir nossos caminhos tais quais os caminhoneiros na estrada, olhando sempre para frente, pois o que ficou não volta atrás.

Um Grande Momento

João contando a Duda sobre o pai do garoto.

À Beira do Caminho

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