A noite de ontem (19) do 26º Cine Ceará foi dedicada aos documentários. Focando no conflito espacial, social e moral, uma seleção de filmes brasileiros trouxe à tela do Cine Teatro São Luiz realidades diversas.

Dois curtas-metragens iniciaram a programação, o pernambucano Fotograma, de Luís Henrique Leal e Caio Zatti. e o brasiliense Índios no Poder, de Rodrigo Arajeju. O primeiro fala de verticalização nos grandes centros, da separação espacial e de preconceito racial usando a palavra escrita, a narração em off e uma estética elaborada de montagem.

Uma imagem, gravada para um outro filme, intrigou seus realizadores, que resolveram manipulá-la para criar a experiência em Fotograma. O diretor e também montador Caio Zatti explica que a inspiração formal vem do cinema ensaio. “É um cinema que vai do ouvido ao olho”, explica que em Fotograma é o off que conduz a imagem e não o contrário.

Indios-no-poder_interno

Índios no Poder fala sobre a falta de representatividade dos indígenas no congresso, o que possibilitaria os absurdos causados pela conhecida bancada ruralista. Apesar da construção mais afobada, o curta-metragem tem uma estrutura de colagem clássica, com uso de material de arquivo e tomadas atuais.

Arajeju é formado em direito e especializado em direito ambiental e veio parar no cinema justamente por ver ali um meio de voz aos indígenas, uma das etnias menos defendidas neste momento de agenda positiva. “Eu não sou cineasta. Minha proposta é usar a comunicação pelo direito dos povos indígenas”, afirmou. O diretor destacou que enxerga no cinema um meio de fazer com que esta narrativa seja ouvida e possa quebrar essa barreira que existe hoje.

O primeiro longa-metragem da noite, Menino 23, dirigido pelo experiente Belisário Franca, traz à tona a tese de doutorado do professor de história Sidney Aguilar. Depois de uma aluna comentar que havia uma suástica nos tijolos da fazenda de sua família, Aguilar iniciou sua pesquisa sobre a permanência de traumas causados por exploração e violência na infância, abordando a educação eugênica no contexto do integralismo no Brasil.

Menino-23_interno

A cara de documentário televisivo, que mescla entrevistas a re-encenações e imagens de arquivo, talvez não seja tão eficiente como cinema em seu produto final, mas conta uma história que precisa ser conhecida: a de 50 meninos órfãos negros que foram retirados da capital do país, então no Rio de Janeiro, para fazer trabalhos escravos na fazenda de Osvaldo Rocha Miranda.

Em sua tese, Aguillar reconstitui laços estreitos entre as elites brasileiras e crenças nazistas, refletidos em um projeto eugênico implementado no Brasil, presente inclusive na Constituição Federal de 1934.

O projeto, inicialmente cotado para uma série da History Channel, chamou a atenção de Belisário, que resolveu fazer o filme. Com depoimentos de dois daqueles meninos e da família de um terceiro, o longa divide-se em três tempos distintos: a década de 30, a tese de Aguillar e o presente. E conta com uma interessante pesquisa de imagens históricas de Remier Lion.

Do-outro-lado-do-atlantico_interno

Para encerrar a noite, o filme escolhido – fora de competição – foi o longa-metragem Do Outro Lado do Atlântico, de Daniele Ellery e Márcio Cãmara, sobre os estudantes africanos que vieram estudar no Brasil, mais precisamente na cidade de Redenção no Ceará.

Primeira cidade do país a decretar a abolição da escravatura, foi lá que foi construída a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), um dos destinos mais frequentes de habitantes do Cabo Verde. As diferenças e semelhanças entre esses dois povos dão a tônica do documentário.

Se o documentário predominou na noite de domingo, nesta segunda há um equilíbrio entre o gênero e a ficção com as exibições do curtas documental Uma Família Ilustre, de Beth Formoggini, e do curta de ficção Noite Escura de São Nunca, de Samuel Lobo. Na exibição dos longas-metragens estão o documentário mexicano Casa Blanca, de Aleksandra Maciuszek, e a ficção brasileira Clarisse ou Alguma Coisa Entre Nós Dois, do cearense Petrus Cariry.

O 26º Cine Ceará continua até o próximo dia 22 de junho, com exibições no Cinema do Dragão e no Cine Teatro São Luiz, e debates com os realizadores no Hotel Mareiros.